Em defesa da literatura trabalhista
Tradução: Felipe Chaves Gonçalves Pinto
Revisão e cotejo: Beatriz Morelatto
HTML: Felipe Chaves Gonçalves Pinto
Texto original: "Rôdô bungaku no shuchô". In: Dai yon kaikyû no bungaku. Tóquio: Shimoide shoten, pp. 15-31, 1922. Disponível em: NDL Digital Collections. Acesso em: 12/10/2026.
Este texto está licenciado por: Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-SA 4.0).
Nota: Esta tradução foi resultado das atividades desenvolvidas pelo "Núcleo de Literatura Proletária Japonesa" do Grupo de pesquisa pensamento japonês.
Sumário
1
O conteúdo e a técnica são indissociáveis. Isso é tão óbvio quanto poderia ser. Entretanto, no passado, aqueles que se denominavam tecnicistas riam da falta de conteúdo dos conteudistas. Afirmavam, ainda, que as obras do próprio grupo eram superiores em técnica e que, ainda assim, seu conteúdo também não perdia em nada ao dos conteudistas.
Não pretendo, aqui e agora, entrar no mérito da assertividade dessas palavras. Mas, se lermos com atenção o que disseram esses tecnicistas, veremos claramente que sua atitude diante da criação dá mais peso à técnica do que ao conteúdo. E isso prova também que, também em sua relação com a vida, eles não procuram apreender um fenômeno como um simples ser humano, mas sempre o contemplam apenas como uma certa antítese artística. Ou seja, um conteúdo em função da técnica, como uma vida em função da arte.
Certa vez, dizem que Kikuchi[1] respondeu à pergunta sobre qual literatura floresceria no futuro afirmando que seria a literatura socialista. Deixo de lado, por ora, o caso de Kikuchi, e questiono a quem porventura estiver refletindo sobre a colocação daquele: isto é, se considerarmos que a literatura destinada a florescer no futuro é a socialista, se alguém se dispusesse a criar literatura socialista sem nenhuma necessidade interna, o que então seria isso? Seria, ora, subordinar a arte à concepção utilitarista dessa pessoa e, portanto, torcer à força a própria vida ao socialismo. Não é preciso dizer que é uma idiotice.
Por que comecei a falar disso? Nem é preciso dizer, mas é porque tenho como princípio que, antes de ser artista, devo primeiro viver como ser humano que sou. Quando, como ser humano, sinto uma coisa bela como verdadeiramente bela e me disponho a expressá-la, essa beleza deve ser expressa na medida em que a senti; só então o conteúdo vai se tornando técnica. No entanto, do ponto de vista da atitude de quem põe a técnica em primeiro lugar, essa pessoa é sempre movida pela exigência de expressar as coisas de modo mais belo e verossímil possível antes mesmo de sentir qualquer coisa com profundidade e intensidade . Em vez de se esforçarem por penetrar na verdade das coisas, eles buscam antes um ponto de conciliação: como fazer o fenômeno corresponder à sua própria ilusão e como expressá-lo desembaraçadamente com a técnica de que dispõem. Se essas pessoas — chamem-se, como elas dizem, esteticistas, estetas, ou qualquer outro nome — alguma vez tivessem mergulhado fundo e se absorvido, se embriagado e se incendiado no contraste que tentaram expressar, e o tivessem expresso conforme a força do impulso interior que ele exigia, então naturalmente aquilo não seria chamado de obra tecnicista, e provavelmente elas próprias não se contentariam com esse nome. Como elas próprias se resignam ao nome “tecnicista”, sua arte é sem conteúdo, superficial, meramente convencional; nesse aspecto, pertence ao mesmo tipo de coisa que as pinturas decadentes da Exposição Imperial[2] e deveria receber o mesmo tratamento que elas. Talvez possa deleitar os olhos da burguesia e consolar os sentimentos das crianças, mas... Não se pode chamar isso de arte autêntica, nem de atitude de quem busca verdadeiramente a arte.
2
Contudo, meu objetivo aqui não era de modo algum atacar essa arte dos tecnicistas. O que quero dizer, e ainda quero refletir sobre, é por qual razão uma arte tão superficial, tão de fachada, tão semelhante a flores artificiais, chega a se popularizar. Observando isso na sociedade real e também no campo teórico, os problemas sociais em todos os campos começaram a levantar faíscas com um ímpeto incrível nesses quatro, cinco anos. Até cinco ou seis anos atrás, esse problema era apenas parte de uma questão intelectual, encurralado num canto da sociedade e das tribunas de debate, e tratado pelo mundo quase só como falatório de gente caprichosa; hoje, porém, veio à tona como fato incontestável. Antes, políticos, religiosos e especuladores de mercado não se importavam com a chamada questão social nem o suficiente para comparar o tamanho de cavalos de corrida; hoje, contudo, ela se tornou para eles um interesse diretamente ligado a si próprios, e de um modo ou de outro são forçados a examiná-la. E, para atender a essa exigência, todos os jornais e revistas cederam a maior parte de seus espaços de debate e acolheram comentários sobre a questão social. E aquelas pessoas que até então eram obrigadas a se calar, considerando que havia chegado o momento ideal, despejaram o que se acumulava de longa data. Assim, a questão social espalhou-se pelas tribunas como fogo em campo aberto. E concomitantemente, a literatura dita trabalhista pôde mostrar, de modo lamentável, sua existência extremamente insignificante.
O fato de a questão social ser discutida espalhou-se realmente como um vendaval. No fim, porém, aquilo era um problema. Entre as causas de seu florescimento, deve ter havido os que a aprovavam e a exaltavam; os que, embora a criticassem em segredo, a seguiam para não ficarem para trás no transcorrer do tempo; os que tentavam fazer nome aproveitando a ocasião; os que queriam brincar com ela como jogo intelectual, e muitos outros fatores, mas, no fim, esse era a questão. Era o contraste de conhecimento. Precisamente porque estava separado da vida deles, o problema se expandiu de imediato como simples problema. No entanto, a literatura que nasceu junto com ele, embora infantil, é arte. A arte, como um de seus elementos essenciais, apela à experiência real e exige ressonância. Até então, a intelectualidade burguesa, os filhos e filhas que marchavam à frente, os eruditos e os ricos, que faziam disso um contraste de conhecimento, uma semente de pedantismo, ou que o investigavam para descobrir pontos que pudessem ser criticados no campo teórico, enquanto aquilo era um problema e permanecia distante, toleravam-no e até o acolhiam. Mas, uma vez que lhes foram escancaradas as condições de vida miseráveis e trágicas da classe trabalhadora, e quando os sentimentos e ideias rebeldes que eles possuíam, o rancor e a indignação prestes a explodir, foram-lhes postos vividamente diante dos olhos como experiência real, não tiveram como não desviar os olhos. E, numa só palavra, rejeitaram tudo dizendo que aquilo não era arte. Era natural. E os donos de jornais e revistas, que percebiam nos fatos o que se passava nesse meio, embora publicassem em seus editoriais ou proferissem em suas tribunas discursos corajosos como se fossem precursores da corrente de pensamento da época, igualmente rejeitavam a literatura trabalhista enquanto não-arte.
Desse modo, tanto as questões sociais quanto as questões trabalhistas, aceitas em teoria até certo ponto, quando foi preciso encará-las como experiência real, os consumidores de repente lhes viraram as costas. Derramamento de sangue, motins revolucionários, rebeliões: enquanto eram problemas de outros países ou palavras que não ultrapassaram o limiar teórico, eram permitidos e tolerados. Mas, ao entrarem em contato com uma arte que tinha tais palavras como seu conteúdo de pensamento e sentimento e as possuía como experiência real, eles sem dúvida sentiam um tremor desagradável. Na verdade, a experiência real é justamente a sensação direta, honesta e difícil de falsear. E, incapazes de perscrutar esses problemas que ainda mais avançavam como fatos diante de seus olhos, encontraram refúgio numa arte barata, bonitinha e confortável. É nisso que descubro a razão da moda da literatura tecnicista. E penso que também a razão da difusão das ideias religiosas em voga ultimamente talvez esteja igualmente aí. Ou seja, quando as questões sociais, que eram objeto de jogo intelectual, ampliaram o âmbito do problema para dentro dos fatos e por fim já não se podia prever que espécie de incidente poderia ocorrer, a burguesia estremeceu. E parece que é realizando uma pequena esmola de caridade, mera imitação da dos outros, que eles satisfazem de leve a si mesmos. A religião, que é justamente o que neste mundo exige a mais severa das oferendas, é apenas manipulada por essas pessoas. Posso compreender claramente a razão tanto para a moda da literatura tecnicista quanto para a difusão de ideias religiosas baratas quando percebo tudo isso apenas como um refúgio da burguesia. E enquanto a maioria das pessoas leitoras de todas as revistas pertencer à burguesia, enquanto a publicação de revistas for um negócio lucrativo, é também perfeitamente natural que o fluxo que guia o grupo de leitores siga nessa direção.
E numa época de tal fluxo é perfeitamente natural que a literatura trabalhista, afirmando sua existência justamente contra esse fluxo, não seja bem recebida pelo público, e que seja um fluxo secundário ou mesmo interrompido no mundo literário.
3
Dizem que a literatura trabalhista não é arte. E, de fato, isso é bem compreensível. Em suma, o que é, afinal, toda essa beleza que colore e dá brilho à vida da burguesia atual? Por meio do que foram feitas todas essas coisas belas e elegantes da burguesia tais como as mansões suntuosas, as roupas resplandecentes e os automóveis que correm pelas ruas? E a obediência que consideram um bem, o respeito e o serviço ao patrão, o que tudo isso exige do trabalhador? Aos olhos de um proletário verdadeiramente consciente, as vestes de crepe escarlate que as crianças da burguesia exibem orgulhosas são um coágulo do próprio sangue que lhes foi roubado; suas mansões suntuosas são ossos raspados; os automóveis que correm como flechas hão de se refletir como a sombra da própria vida que lhe vai sendo roubada. Para eles, os da classe saqueada e pilhada, tudo aquilo que a civilização burguesa existente hoje considera belo é feio, e tudo o que considera bom é mau; o que eles desejam é destruir toda essa feiúra, quebrar todo esse mal e esforçar-se por construir uma nova beleza e um novo bem. Não é de se espantar que a obra de um escritor que tem esse espírito como efetivo espírito e essa vísceras como suas próprias vísceras pareça não-artística aos olhos da burguesia e de seus bajuladores.
Não se enganem, porém, pensando que o proletário de hoje não ama a beleza ou rejeita o bem. Vejam, por exemplo, como eles se portam diante da natureza. Que, quando muitos deles se defrontam com a natureza, ficam intensamente tocados por sua beleza e como a louvam e veneram, e isso é um fato que só quem conhece verdadeiramente sua vida sabe. Eles, a quem foi roubado tudo o que há de belo neste mundo humano, quando, no caminho de suas andanças, encontram por acaso uma natureza gentil e bela, buscam ali consolo e vida sem falsidades. Não louvam a beleza da natureza por mero passatempo ou por pretensões éticas e morais. Voltam-se para ela como um objeto de vida que consola e cuida de seu “eu” tiranizado e ferido. E esse espírito logo se torna compaixão pelos que, como eles, trabalham e sofrem; e eles, que, junto com o desejo de sua própria felicidade, desejam também o consolo e a felicidade dos que igualmente sofrem, não querem a própria submissão nem a submissão alheia. Apenas desejam, na igualdade de todos, sofrer juntos as dores e gozar juntos das alegrias. Por mais diversas teorias e definições que se deem ao movimento trabalhista, creio que, em seu espírito fundamental, ele não vai além disso.
E, seguindo o caminho contrário, o que é o bem para a burguesia? A base de sua moral é, em suma, querer submeter os outros a si. Conforme sua posição e circunstância, eles próprios são obrigados a obedecer aos outros, mas seu objetivo final não é senão a exigência de, se possível, submeter tudo a si mesmos. E chamam de “bom” aquele que, pela obediência, se submeteu a eles. E o que consideram belo? Como já disse, nada mais é que exibir aos outros o resultado de sua cobiça insaciável e de sua rapina. Não há aí respeito à individualidade nem espírito altruísta. Em tais intenções, em tais fenômenos, que espírito artístico nobre e capaz de nos comover poderia haver?
É certo que a burguesia de hoje, graças ao resultado de longos anos de rapina e exploração, está saciada e satisfeita e exteriormente parece serena e bela, às vezes até parece transbordar de sentimento de caridade. No entanto, a raiz do espírito capitalista que possuem não permite a erradicação da classe oprimida e saqueada. São demônios que, sob essa bela aparência, estão sempre afiando suas garras e presas de rapina. Em sua vida, embora sejam dependentes apenas da rapina, são em si mesmos egoístas desprezíveis que sempre procuram oprimir os outros sob seu poder. Que beleza pode haver aí? Que ponto digno de respeito pode haver numa arte nascida de tal condição?
Talvez grande parte dos proletários de hoje seja, na aparência, horrendo, ignorante, insensível e vil. No entanto, na sociedade vindoura, eles não desejam outra coisa senão a própria felicidade. Não pensam em infligir aos outros as dores das quais eles próprios se livraram. O que desejam é a felicidade de todos e para todos. Eles amaldiçoam hoje a existência da classe adversária que, da maioria da humanidade pertencente à mesma classe que eles, extraiu a vida até que perdessem a autoconsciência de serem também humanos. E embora se esforcem pelo desaparecimento dessas distinções de classe, nem por isso pensam em, no futuro, colocar a classe adversária sob seu domínio. Apenas exigem que também eles se dediquem ao trabalho que cada um requer, e que sejam pessoas da mesma fileira. Aí não se permite extrair o sangue e o suor alheios para tingir as próprias vestes, é um mundo em que se deseja que cada um, pelas próprias forças, viva belamente, cada qual a seu modo. Os proletários de hoje, por terem sido explorados e oprimidos durante tanto tempo, estão famintos e cansados, e seus olhos ardem de rancor e ódio. E, no entanto, ainda assim, em seu objetivo, trazem sempre no peito o anseio pela felicidade de toda a humanidade. Enquanto a burguesia, completamente dependente, é egoísta, este espírito proletário quer a pura autonomia e arde em amor ao próximo. Está claro e é desnecessário dizer qual, entre as duas posições, é bela e elevada.
Tal literatura trabalhista de hoje, que tem esse espírito proletário enquanto norte, pode ainda ser bastante infantil, mas pode certamente ter o orgulho de dizer que o espírito que abriga é muito superior e mais elevado que a literatura burguesa. E ainda que não seja bem recebida pelo público, ainda que seja tratada como corrente secundária nos círculos literários, isso tem pouca importância. Basta que continuemos até o fim a luta árdua, por nossa vida e por nossa arte. Rejeitemos a literatura frívola que louva aquelas vestes belas que são como símbolos da rapina; enterremos a literatura vil que anseia por belezas que expressam a decadência trazida pela saciedade. E do peito que abriga sangue fresco, daqueles olhos que brilham na fronte queimada pelo sol, fazei brotar um espírito ainda mais nobre e ainda mais elegante: é isso que exijo da literatura vindoura.
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No entanto, também o caminho da arte é um caminho de disciplina e sofrimento, o mais difícil entre os difíceis. Por mais que eu tenha tais exigências e sustente tais afirmações, se a arte que eu gerar não conseguir transmitir ao leitor essa mesma impressão, isso provará que meu conteúdo não estava, por si só, suficientemente pleno. Pouco importa se meu método de expressão for naturalista, neo-romântico ou qualquer outra coisa do tipo, quanto mais profunda e fortemente eu, em meu âmago espiritual, viver de verdade como proletário, tanto mais serei capaz de causar no leitor uma impressão forte e profunda. Enquanto minha arte não for algo plenamente vivido e gerado espontaneamente a partir de meu próprio conteúdo, sigo rejeitando a produção de obras que bajulam a ideia por meio de recursos e de usos literários. Isso daria exatamente no mesmo resultado que o dos tecnicistas produzindo obras que bajulam a técnica. E basta que eu me esforce por aprofundar cada vez mais meu conteúdo. Quem possui um grande espírito jamais publicou uma obra vil. Ainda que seja penoso, ainda que tarde o dia em que os resultados apareçam, parece não haver outro caminho a seguir senão ser fiel a si mesmo.
Antes de sairmos por aí brandindo a literatura trabalhista, não deveríamos primeiro pensar o quanto vivemos verdadeiramente como proletários? Assim como, antes de ser um verdadeiro artista, é preciso viver verdadeiramente como ser humano, antes de ser um verdadeiro escritor trabalhista é preciso viver como verdadeiro proletário. Entre as obras chamadas de “literatura trabalhista”, parece ter havido não poucas que, mais do que nascidas de uma forte exigência do autor, eram apressadas em exibir um pouco de conhecimento socialista, ou em se disfarçar forçadamente de escritor trabalhista, sem nenhuma experiência real que as acompanhasse. Tais obras são desagradáveis e sem valor, como as produções socialistas criadas por estímulo da resposta de Kikuchi. Se houver escritores mascarados que entendam fazer da literatura trabalhista mercadoria em sentido depreciativo, ou usá-la como pretexto para forçar um interesse e lançar-se no mundo literário, então são coisas que devem ser desprezadas e cuspidas no mesmo nível dos corretores de mão de obra que fazem do movimento trabalhista seu alimento e sustento.
Outrora bastante intensa, a questão social nas revistas também foi aos poucos perdendo força, e parece ter chegado o momento em que tanto os ativistas quanto os debatedores são passados pela peneira. Quando a popularidade dos escritores trabalhistas também começa a se esvair, é um espetáculo bastante interessante ver que tipo de pessoa permanecerá aqui por uma exigência genuinamente provinda do coração e avançará mirando nisso.
Novembro de 1921
Notas
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Kikuchi Kan (1888-1948), influente escritor é também amplamente conhecido por ter fundado a Bungei shunjû, editora e periódico em atividade desde de 1923 e que organiza anualmente o, entre outros, Prêmio Akutagawa de literatura. ↑
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Trata-se da Teikoku bijutsu tenrankai (帝国美術展覧会), abreviado como Teiten (帝展), foi uma série de exibições de artes plásticas que ocorreram durante os anos de 1919 a 1934. As programações e as exibições estavam subordinadas à Academia de Artes Imperial do país e passava por um júri durante a seleção e premiações. ↑