Bonecas fascio
(ato único)
Tradução: Fabio Pomponio Saldanha
Revisão e cotejo: Felipe Chaves Gonçalves Pinto
HTML: Felipe Chaves Gonçalves Pinto
Texto original: "Fassho ningyô (ichimaku)". In: Ikita shinbun, 1931. Disponível em: Internet Archive. Acesso em: 10/10/2026.
Este texto está licenciado por: Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-SA 4.0).
No centro do palco, vemos um vendedor de bonecas, numa feira noturna, com várias amostras alinhadas.
(O vendedor dirige-se ao público)
— Venham, venham, pessoal! Eis as tão aclamadas bonecas de celuloide com mecanismo de mola automática. Temos uma grande variedade, desde os produtos já conhecidos que vocês sempre compram até os itens inovadores e da moda, cuja patente está sendo solicitada neste exato momento: tudo por dez sen. É justamente a hora da saída da fábrica, e os trens estão lotados até não caber mais ninguém. Desculpem-me por dizer isso, mas depois de trabalhar o dia inteiro por um salário mísero e, no final, ficar pendurado nas alças espremido como sardinha em lata, é natural que a paciência se esgote e, ao entrarmos em casa, sintamos vontade de dar um ou dois tapas na cara da patroa. Então, ao invés de perder tempo esperando passar por cinco ou seis trens lotados, dê uma olhada nos nossos produtos promocionais de nossa modesta loja e escolha o que mais lhe agradar para levar como lembrança, evitando parar em lugares perigosos como aquelas reuniões dos vermelhos, e volte para casa esticando os braços e as pernas em um trem com espaço de sobra. Assim, tanto a patroa quanto os pequenos ficarão muito felizes, garantindo a segurança, a paz no lar e a harmonia familiar. É claro que, entre os clientes, há alguns ignorantess que, de cara, menosprezam nossos produtos por acharem que são apenas quinquilharias de um ambulante qualquer, mas nossos artigos são bem diferentes das coisas encontradas em qualquer barraca de rua. Em todos os cantos do mundo… bem, menos na Rússia né. Ainda há pouco tempo, um habilidoso fabricante de bonecos daquele país importou matéria-prima da França e criou um modelo raro e maravilhoso chamado “boneco do Partido Industrial” mas, nas mãos de burocratas sem noção, não teve jeito: alegaram que, se tal produto fosse amplamente comercializado, a ordem social ficaria comprometida, e acabaram apreendendo tudo; uma situação lamentável. Por isso, tirando aquele país, em todos os cantos da Europa e dos Estados Unidos, as vendas estão voando como se tivessem asas. Poderíamos até dizer que temos um produto especial, cuidadosamente selecionado e já testado em vários países.
(Dirigindo-se a um lado da plateia)
— Ei, ei, o senhor aí, com essas vestimentas todas tradicionais. O que acha de um exemplar? O modelo é antigo, mas é o conhecido boneco social-democrata, um produto de excelente qualidade, fabricado em celuloide amarelo holandês.
(O vendedor pega um dos bonecos enquanto segue seu monólogo)
— Experimente: coloque uma nota bem na frente dos olhos desse boneco. Graças a um mecanismo de mola misterioso que aplica a ciência mais recente, assim que o boneco vê o dinheiro, estende as duas mãos como se estivesse vivo e faz uma reverência saltitante: esse é o truque... O quê? Esse tipo de coisa não faz sucesso entre a galera daqui? O quê? Quer que um senhor burguês pague um bom preço por ela? Tudo bem, então. Você, aí, só tem uma passagem de bonde no bolso, não é? Clientes que nem sequer têm dez sen para pagar a entrada não têm lugar aqui, então, por favor, não fiquem na frente.
(Virando-se para outro lado da plateia)
— Ei, ei, você aí da roupa toda azulada, o que acha desse aqui? É um boneco de celuloide bem chamativo, daquele vermelho vivo que tá na moda ultimamente. Chamo-o de “Boneco da Esquerda Social-Democrata”; não te agrada? O quê? Hein? Torakô, aqui do lado, comprou um desses nesse meio tempo? Então, como vizinhos, estamos combinadinhos. Hã? O quê? Ele esfregou com um pano e a tinta vermelha descascou, e a base ficou amarela mesmo? Não tem jeito, já desmascarou o segredo. Hã? O quê? Quando mostrou uma nota de dinheiro só pra testar, ele estendeu a mão e fez uma reverência? Hum, é mesmo. Uau, como era de se esperar, o tipo de cliente hoje à noite é diferente. Se o senhor tem um gosto tão refinado, não tem jeito, então, para competir, vou mostrar meu trunfo.
(O vendedor pega outro boneco)
— Ora, não se surpreenda. Este aqui é um boneco fascista. Se contarmos sua história, é uma peça famosa que a empresa italiana Mussolini começou a vender em 1920 e que deixou o mundo inteiro boquiaberto. Justamente naquela época, na Itália, os bonecos vermelhos de aço lançados pela empresa bolchevique foram proibidos, e tanto quem comprou quanto quem vendeu esses bonecos levou uma bronca danada das autoridades; por isso, em um piscar de olhos, esse aqui se espalhou por todo o país. É verdade que não fez muito sucesso entre os trabalhadores, mas os camponeses e pequenos burgueses, esse pessoal de confiança que, de modo geral, detestava a cor vermelha, botaram bastante fé nesse modelo. Como se trata do boneco fascista, também conhecido como “bastião do capitalismo monopolista”, mesmo sendo de celuloide, é um produto robusto e resistente. Dá uma olhada!
(O vendedor coloca o boneco no chão e dá um pisão nele)
— Mesmo que você pise ou chute, ele nem se mexe. O quê? Quer tentar pisar com mais força? Ah, isso não dá. Afinal, como se trata de um boneco de celuloide, não dá para comparar com aqueles bonecos vermelhos feitos de ferro.
(O vendedor pega o boneco com cuidado)
— A propósito, como esses bonecos vendiam bem, a produção de bonecos inspirada na Itália começou a se espalhar cada vez mais, da Hungria à Espanha, passando pela Polônia. E, finalmente, esse negócio foi se enfiando pelo continente europeu até chegar bem lá no meio, na República da Alemanha. Afinal, em todos os países do mundo, os trabalhadores estão ficando cada vez mais espertos, e os bonecos social-democratas estão perdendo compradores a cada dia. Assim, até mesmo aqueles que fabricavam bonecos de celuloide amarelos mudaram de rumo, e a maioria, aqueles mais espertos, se tornou distribuidor exclusivo desses bonecos fascistas, que são vendidos à força e com intimidação. É verdade que uma minoria de colegas do ramo, bem, não dá para dizer que seja minoria, mas, de qualquer forma, esses caras tolos e míopes, que deveriam ter evitado isso, acabaram mudando de lado e se aliando aos fabricantes de bonecos vermelhos. Deixando as digressões de lado, grosso modo, é assim que, acompanhando a moda dos países ocidentais, os colegas japoneses do ramo também começaram recentemente a se interessar cada vez mais por esses bonecos fascistas. Então a nossa fabricante tomou a dianteira, conquistando o mérito de ter sido a primeira a submeter um pedido de patente. Enquanto o processo estava em andamento, fizemos uma campanha publicitária em grande estilo e, embora pudéssemos pedir cinquenta sen, acabamos fechando o preço em quarenta sen, trinta sen, vinte sen, quinze sen e, por fim, apenas dez sen. Vamos lá, vamos lá, comprem, comprem! O quê? O quê? Com um discurso tão ruim assim, por mais que queiram comprar, não conseguem se decidir? O quê? Por que, afinal, as bonecas fascistas começaram a fazer sucesso até na Alemanha? Ah, entendi, como poderia ter deixado isso de lado? O regime ditatorial da Alemanha é, segundo as últimas notícias, um recurso publicitário de 100% para a divulgação das bonecas fascistas. É muito mais divertido do que qualquer discurso de propaganda vermelha. A Alemanha, como vocês já sabem, até a primavera do ano passado era dominada pelas bonecas social-democratas da empresa Hermann Müller, produtos de qualidade muito superior às bonecas social-democratas fabricadas no Japão, mas essa empresa também começou a passar por dificuldades financeiras e, enquanto cortava salários e reduzia o seguro desemprego, construiu enormes cruzadores, esmagou o Dia do Trabalhador dos camaradas vermelhos e conseguiu dissolver aquela terrível sociedade chamada “Aliança dos Combatentes da Frente Vermelha”. Enfim, com um desempenho multifacetado, serviu de corpo e alma à burguesia financeira. Mas, chegando a esse ponto, já não se trata mais de um simples boneco social-democrata. Sem que percebêssemos, ele se transformou rapidamente em um boneco fascista. O que diferencia essa boneca dos produtos japoneses não é apenas o celuloide rígido e o acabamento impecável; o que a torna valiosa é que, ao contrário dos produtos japoneses, mesmo que se mostre apenas uma pequena moeda, ela não faz uma reverência que pareça barata. No entanto, a empresa Hermann Müller acabou abrindo um enorme buraco no cofre e passou o negócio para a União Bruening que, por sua vez, é uma distribuidora de bonecas fascistas ainda mais influente do que a anterior. Além disso, logo atrás está a empresa Hitler, um verdadeiro azarão nesse setor. Por isso, a União Bruening também decidiu arregaçar as mangas: com a recessão mundial chegando a este ponto, já não dá mais para ficar falando dessas coisas demoradas sobre a democracia burguesa e a política parlamentar. Mesmo que sejam acusados de tirania, se não concentrarem todo o poder de que dispõem e não resolverem as coisas rapidamente, a segurança do mundo inteiro e, por extensão, a da própria Alemanha, não poderá ser garantida. O quê? O quê? Você está dizendo que isso é apenas a segurança da burguesia? Não se deve dar espaço para comentários desnecessários. A União de Brüning, desde julho até o dia 7 de outubro do ano passado, já promulgou um número incontável de “decretos de emergência”. O quê? Arbitrariedade? Como pode ser arbitrariedade? Isso está claramente escrito no artigo 48 da Constituição alemã. Quem não sabe, não sabe, mas o Kaiser, com sua barba característica, desapareceu do cenário mundial e a atual República foi fundada em 1918. Na época, os senhores burgueses alemães se gabavam dizendo que a Constituição da República da Alemanha era a mais livre do mundo, e isso certamente não deixa dúvidas. Como estamos agindo exatamente conforme está escrito nessa Constituição, que é a mais livre de todas, não há como reclamar. Ou seja, o artigo 48 da Constituição diz que, em situações de emergência, o presidente da Alemanha pode tomar medidas militares, fiscais e administrativas como bem entender, sem passar pelo Parlamento. O quê? Você é totalmente contra a ditadura? Cala a boca e escute quietinho. Para superar essa crise econômica, a pior desde o início da história, precisamos nos unir como nação e aguentar as dificuldades. Ei, ei, rapaz ali, não jogue bitucas de cigarro em qualquer lugar. Meu negócio é com artesanato de celuloide, sabe. Assim como no Japão, a Alemanha também está enfrentando uma enxurrada de desempregados. No final do ano retrasado, havia 2,1 milhões de desempregados. No final do ano passado, 3,8 milhões. Ultrapassou essa marca no nesse último Ano Novo, chegando a 4,8 milhões e, neste verão, os desempregados chegaram a 5 milhões. Nesse ritmo, não dá para saber até onde isso vai chegar, mas, enfim, se perguntar por que está surgindo um número tão gigantesco de desempregados... É… cala a boca, cala a boca! É por causa daqueles comunistas imprudentes que se aproveitam das queixas e das insatisfações do povo para soltar um monte de discursos absurdos, atrapalhando a unidade nacional e fazendo com que os trabalhadores comecem suas sabotagens. É por sabotarem o trabalho que a produtividade em toda a Alemanha entra em declínio. Como a produtividade entra em declínio, surge a recessão; e como surge a recessão, surge o desemprego… É… calem a boca, calem a boca. Essa é a parte importante. E, quanto ao valor desses fantochezinhos fascistas que estão fazendo propaganda por aí, o nacionalismo é a fachada. No Japão, se o Estado se dedicar a essa ideologia de preservação do nacionalismo, não deve ficar atrás de nenhum outro país do mundo. O quê? O fascismo é nacionalista e xenófobo porque serve de preparação para uma guerra de invasão? É… espera, espera, espera aí. De qualquer forma, com essa tal “ordem de emergência” que contornou esse parlamento barulhento, por um lado reduzem os impostos sobre sociedades anônimas e títulos mobiliários para aliviar o bolso dos grandes magnatas financeiros do mundo atual e pedir que se empenhem na recuperação da economia. Por outro lado, pedem que a população em geral tenha paciência, já que a Guerra Mundial já foi há muito tempo, e cortam ao máximo os auxílios aos ex-combatentes, bem como os auxílios às famílias das vítimas, e também cortam os salários dos funcionários públicos de nível inferior e dos militares de baixa patente. A intenção é matar os insetos pequenos para salvar os grandes. Bem, nesse clima, neste mundo capitalista, surgem sem parar todo tipo de modismos: bonecos social-democratas, bonecos fascistas, que servem de bengala de apoio. Por isso, as histórias de conto de fadas descritas nas instruções de uso dos bonecos vermelhos dificilmente se concretizam. O quê? Você não acha que um boneco de celuloide como esse serviria de suporte? Não é brincadeira, esse aqui é super resistente; por mais que você pise ou chute, ele nem se mexe, já fiz a demonstração na frente de todos há pouco. Se achar que é mentira, vou fazer de novo para vocês verem. Pronto, vejam só, mais um pouco, mais um pouco.
(Com força sobressalente, o vendedor esmaga o boneco em um único movimento)
— Opa, que azar, cometi uma asneira danada. Acabei de estragar um produto importante da loja.
(O vendedor pega o boneco de volta, com ar de pena)
— Ora, ora, os clientes que eu me dei o trabalho de reunir se espalharam todos para outro lugar.
(Elevando ainda mais a voz)
— Vamos lá pessoal, aproximem-se, aproximem-se! A tão aclamada boneca fascista com mecanismo de mola automática. Como o pedido de patente ainda está em andamento, estamos fazendo uma grande promoção para fins de divulgação: custa apenas dez sen. Vamos lá, superpromoção, superpromoção! As vendas estão voando desde o início; já vendemos mais de cem esta noite e restam apenas dez unidades. Como já está bem tarde, e movido pelo espírito de sacrifício em prol da sociedade e em benefício da sinergia das massas, poderia dizer que cada uma custa dez sen, mas vou baixar para oito sen… seis… cinco… três sen... Tá bom, vou dar um desconto enorme: um sen, uma única moeda de cobre de um sen. Droga, nem assim vocês compram? Ninguém compraria? Não?
(Enquanto se esgoelava até a rouquidão, escurece)
Outubro de 1931.