A literatura do quarto estado

Nakano Hideto

Tradução: Felipe Chaves Gonçalves Pinto

Revisão e cotejo: Fabio Pomponio Saldanha

HTML: Felipe Chaves Gonçalves Pinto

Texto original: "Dai yon kaikyû bungaku". In: Bunshô sekai, 1920. Disponível em: Aozorabunko. Acesso em: 10/10/2026.

Este texto está licenciado por: Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-SA 4.0).

Nota: Esta tradução foi resultado das atividades desenvolvidas pelo "Núcleo de Literatura Proletária Japonesa" do Grupo de pesquisa pensamento japonês.

A literatura também está sujeita à lei da utilidade marginal decrescente[1]. Diga-se o que disser, o solo mais propício para nutrir a literatura era a sociedade aristocrática. Era uma sociedade em que se podia comer sem nada fazer. A literatura nasce na sociedade dos ociosos. Mas, à medida que o solo era revolvido repetidamente, os retornos sobre o capital e o trabalho nele investidos começaram a diminuir. As sementes semeadas eram todas levadas pelos corvos, as abóboras davam em buchas e assim por diante. Então, os mais ousados partiram rumo às terras do Terceiro Estado. Ali cultivaram frutos e legumes desconhecidos e raros. A literatura até então estagnada e uniforme saiu para um mundo resplandecente e desimpedido. Mas a nova literatura também não deixa de envelhecer. Como a camélia que, depois de florescer em carmesim e esplendor, vai ao solo repentinamente, ou como a dália de floração tardia que tomba de súbito para a frente, a literatura, cerceada em um ambiente abafado e mal ventilado, transformou-se numa literatura de raízes firmes, daninha, mas transbordante de “força”. Transformou-se na literatura do Quarto Estado. Ora, para desbravar terra nova são necessárias paciência e coragem. Não se deve desanimar cedo só porque, à superfície, cresce apenas ervas daninhas. As pessoas que dizem não suportarem a ideia de que literatura poderá nascer de um proletariado ignorante e inculto, quanto mais dos trabalhadores japoneses, endurecidos pelo materialismo, pela comida e bebida, pela lascívia e por uma visão barata da vida, essas pessoas são incapazes de conhecer as pequenas sutilezas do coração humano. São pessoas incapazes de percebe o sussurro da natureza em seus breves movimentos. E, além disso, a literatura do Quarto Estado não é necessariamente feita pelos próprios trabalhadores. Antes, há valor no fato de a literatura vestir o macacão de trabalho. Não são justamente a simpatia ou a emoção o núcleo de toda e qualquer literatura? Devemos esperar com paciência, como quem cultiva flores com esmero. Dito isso, não defendo de modo algum que a literatura se desenvolva através da consciência de classe, nem penso que esta nova literatura seja superior a toda a literatura do passado. Apenas não consigo conter a grande esperança e alegria diante da literatura que está para brotar nesta nova terra virgem.

A literatura é o alimento espiritual de toda a humanidade. E a literatura, em si mesma, é aliada da justiça e da liberdade. A libertação é a essência da literatura. Portanto, é natural que sua contemplação estética se dirija ao Quarto Estado, oprimido. Por que a literatura passou a abraçar o trabalho e o sofrimento? A literatura sempre se aninha entre os oprimidos e acende o estopim da libertação. O Renascimento, a Revolução Francesa e a Revolução Russa foram todos encenados tendo a literatura como pano de fundo. A força da democracia, que flui eternamente na história humana, também foi movida pelo clamor da literatura que procura derrubar a desigualdade. Mas a literatura não é o ferramental para tanto. Por isso, quando surgir uma sociedade de liberdade e igualdade, a literatura brilhará ainda mais. No entanto, poderá realmente erigir-se tal sociedade? Em que sentido e sob qual forma deverá dar-se a concordância entre o eu e a sociedade? Deixemos isso às discussões de política social e filosofia. Não é um problema que se coloca quando consideramos a literatura realisticamente. A literatura é a própria emoção. A literatura não deve coabitar com este ou aquele -ismo. A literatura sempre caminha para a justiça e a liberdade, mas não se deixa aprisionar por ambos. Por isso, pode-se dizer que o valor da literatura é julgado pelo grau de lucidez de sua emoção. Mas, então, por que nosso interesse pela literatura atinge o ponto culminante quando ela toca o Quarto Estado? Porque esta é uma literatura inteiramente nova. Porque nossa emoção arde em amor fervoroso pelo Quarto Estado. Agora, fora do Quarto Estado, não existe caminho para a literatura. Não há como saber se isso é graça ou desgraça. Como a água que corre para baixo, o principal fluxo de correnteza da literatura a trouxe até estas terras baixas. Haverá, sem dúvida, várias objeções a isso. Mas os fatos parecem estar provando-o. Também no Japão há uma tendência a que Futabatei[2] e Takuboku[3] causem mais impressão ao homem moderno do que Sôseki[4] e Chogyû[5]. As bufonarias do gato e as angústias de Takiguchi[6] têm algo de distante na vida moderna, em que motores e correias fazem ruído. Enquanto se representa o drama da revolução interna, da revolução internacional e da luta social, com que haveríamos de nos cegar diante disso? Ainda assim, não haverá nenhum mestre capaz de recortar o mundo tal como ele é e indicar tanto as angústias quanto as esperanças de hoje? Ver a lua e ter o coração despedaçado em mil pedaços: como é detestável essa tepidez. Olhai para a Rússia. A Rússia está quebrada na forma, mas parece querer ser inteira na alma. É o ânimo de “se a tua mão te faz mal, corta-a”. Por isso, a literatura do anseio logo rompeu o sentimentalismo da escola populista e subiu ao estrado da luta social. O caminho dos modernistas, arrastados por profundidade, desespero, exaltação e delicadeza, não para enquanto não tocar o cerne do sistema social. Tchékhov[7], que cantou a desilusão dos intelectuais, foi um gênio sem asas que vagou descalço pela planície desolada da realidade. Diante das “lágrimas em meio ao riso” de Maupassant[8], como não seria interessante o que poderia contar um “riso em meio às lágrimas”?[9] Indo ainda um passo além, a realidade de Gorki[10], que pintou com sangue a grandiosidade da “vontade”, é a narrativa de sublevação de O animal que outrora foi humano[11]. E, no entanto, a subjetividade de todos esses autores apareceu sob a forma completa da objetividade. A riqueza de cores, a agudeza dos sentidos: sua grandeza não está em terem conduzido ou não a Rússia moderna, mas na maravilha de sua arte. Também em nosso mundo literário muitos tomam essa Rússia como modelo. Mas não faltará a esses pequenos sofistas um senso de realidade? Ao confiarem a vida de hoje e de amanhã ao impulso do momento, vivendo tranquilamente ora se confessando, ora rezando, não há aí algo decepcionantemente frouxo? Assim como a Rússia deglutiu a literatura da europa ocidental e a fez sua, nós temos de deglutir a literatura russa e fazê-la nossa.

Agora, a literatura do Quarto Estado está para ser cultivada. Com que esforço e com que instrumentos isso deve ser feito? O espírito de independência e autorrespeito, o heroísmo de dizer “eu sozinho enfrentarei o mundo”, é o que mais se faz necessário. Mais do que ser uma pessoa boa sem poder algum, é preciso ser uma pessoa má e poderosa. Não é um problema esse pensamento ser imaturo. Ao contrário, é justamente por sua imaturidade que ele é sincero e sempre se choca com os grandes problemas da vida. Na verdade, não há nada mais temível do que essa infantilidade. Nesse ponto, existe alguma semelhança com a literatura aristocrática. A literatura do Quarto Estado tem sua força justamente nesse ser infantil até o fim. É essa infantilidade que se torna causa da insatisfação diante do estado atual das coisas e do impulso de uma sede insaciável de conhecimento. Assim, é a investigação da organização social que se torna umas das principais características da literatura do Quarto Estado. Naturalmente, a arte deveria ter como único capital a inspiração inata. Mas o esforço de tentar investigar tudo ao limite não é justamente o que fortalece essa inspiração? Assim como, para pintar, é necessário conhecimento de anatomia, para fazer literatura também é necessária uma visão da organização social. Sobretudo na época moderna, todas as ciências parecem convergir para um foco e ali queimar. Nem mesmo a economia se pode conhecer sem a compreensão da moral, da religião e da política. A arte é justamente conhecer verdadeiramente a organização social. Temos de destruir a pequena arte para criar nossa arte grandiosa.

A literatura do Quarto Estado não deve se compadecer daqueles que choramingam, que sofrem desilusões amorosas ou que estão na miséria. Por mais tristes e amargas que sejam as coisas, é preciso fingir desconhecimento e manter a compostura. As pessoas modernas são egoístas até o fim. Quem não suporta o peso desse ego, que se sente à beira do caminho e contemple os transeuntes, sem se lamentar nem invejar. É melhor não fazer confissões; além disso, não é algo que se possa realmente concretizar, nem há quem de verdade as escute. Não se deve descer à realidade, mas também não se deve pisar fora dela. Não devemos buscar salvação alguma. Basta fitar a si e pensar em silêncio. É ridículo o teórico reformista que fala em salvação e seus congêneres.

“Pense você mesmo nos seus próprios assuntos”. Esta é uma frase que os escritores modernos usam em diversos tons e em diversas situações. Que saudação fria e, ao mesmo tempo, que palavras preciosas e bondosas. Devemos enxugar as lágrimas antes de aparecer diante dos outros. Se não, passamos vergonha. Pois vivemos sozinhos diante deste mundo e quanto de “força” não será necessário? O Quarto Estado é especialmente algo que essa solidão vai construindo. Todos comem com as próprias mãos. “Cada um deve pensar por si mesmo nos seus próprios assuntos” é o cotidiano do proletário. A expressão “Into the people”[12] encerra um forte senso de responsabilidade: todos devem participar de alguma forma de produção. A literatura do Quarto Estado não é literatura de compaixão ou súplica. É literatura de rebelião e luta. É uma literatura que não deve mostrar a menor fraqueza. É uma literatura que deve engolir sapos amargos. Aqui, dizer “Quarto Estado” apenas por aparência exterior não basta. Os grandes escritores estão sempre no Quarto Estado. O homem desperto é sempre um proletário espiritualmente. É espiritualmente pobre. Mas o interesse moderno está em que até as indumentárias procurem se revestir das coisas do Quarto Estado. Dostoiévski[13] nos é mais caro que Tolstói. Na poesia de Whitman[14] e Traubel[15] pode-se ver até uma democratização enquanto questão de gosto estético. Na verdade, a corrente principal do mundo literário flui através do Quarto Estado, ansiando por justiça e liberdade.

Ah, acabei por fim aprisionado pela minha tendenciosidade ao Quarto Estado. Mas, para mim, que amo apaixonadamente a expressão “Into the people”, não há remédio. A literatura do Quarto Estado é indelicada e também tem algo de louca. Observa todas as contradições e absurdos da luta pela sobrevivência e da lei do mais forte. Sabe bem que a Liga das Nações é uma ditadura do pensamento. Defende a justiça e a liberdade, mas não se compadece nem consola. Abriga ideais e amor, mas fala apenas da realidade. Olha os oprimidos com sentimento apático. E entende que isso é o único apoio aos oprimidos. No meio de emoções exageradas, teme, acima de tudo, chorar ou rir. Com o coração sereno, procura suportar qualquer coisa. Mas arte alguma é apenas propaganda ou defesa. Millet[16] não era apenas um camponês. Zola[17] não era apenas um realista. A beleza! Não é justamente a beleza, também, o que o Quarto Estado ama apaixonadamente? O Quarto Estado, atormentado pela dura luta da vida, procura no mundo da beleza um consolo como única saída. Em sua beleza não há requinte de escolha. Brilha porque é fervorosa. É penetrante porque é séria. É a beleza libertada. A literatura renasceu. A humanidade renasceu.

Notas

  1. Trata-se da primeira lei de Gossen, a Lei da utilidade marginal decrescente (Law of diminishing marginal utility). Enquanto princípio microeconômico, propõe que em se mantendo tudo o mais inalterado, quanto mais se consome um bem ou serviço, menor tende a ser a satisfação adicional obtida com cada unidade extra. ↑

  2. Futabatei Shimei (二葉亭四迷, 1864-1909), romancista e tradutor japonês muito conhecido pelo seu estilo realista. ↑

  3. Ishikawa Takuboku (石川啄木, 1886-1912), poeta e crítico japonẽs muito conhecido pelos seus trabalhos que lidam com o mundano de uma perspectiva artística. ↑

  4. Natsume Sôseki (夏目漱石, 1867-1916), grande romancista japonês conhecido no Brasil por obras como Eu sou um gato e E depois etc. ↑

  5. Takayama Chogyû (高山樗牛, 1871-1902), escritor japonês conhecido, entre outras coisas, por sua individualismo romântico e nacionalismo exasperado. ↑

  6. A “farsa do gato” refere-se ao romance de Sôseki, Eu sou um gato, em que a narrativa é feita por um gato. Takiguchi é a personagem principal do romance quase-histórico Takiguchi nyûdô, de Chogyû, que tem como modelo o Heike monogatari. ↑

  7. Anton Tchékhov (1860-1904), famoso dramartugo e escritor russo muito famoso por seus contos. ↑

  8. Guy de Maupassant (1850-1893), famoso escritor francês muito conhecido pelos seus contos. ↑

  9. Nakano parece se referir ao ensaio “Le Roman”, presente enquanto prefácio do romance Pierre et Jean, de Maupassant. Neste o atuor advoga pela liberdade da pessoa que escreve em poder representar a realidade (que não é tã o simples como se costuma pintar) com liberdade e de perspectivas novas e inusitadas. Nesse sentido, ao inverter a colocação do autor por “riso em meio às lágrimas”, Nakano parece estar sugerindo ainda uma nova forma de olhar a realidade que focaliza não a desgraça em meio à fortuna, mas o seu contrário. ↑

  10. Máximo Gorki (1868-1936), famoso escritor russo considerado como uma ponte entre Tchékhov e Tolstói. ↑

  11. Trata-se da novela Byvshiye lyudi (1897), de Gorki e que comumente é considerada como uma expressão autêntica do realismo social russo. ↑

  12. O termo provavelmente vem do russo “Hozhdenie v narod” (literalmente “ir ao povo”), lema dos Narodniks, membros da elite urbana russa que tentavam implementar o socialismo agrário entre os campesinos russos. ↑

  13. Fiódor Dostoiévski (1821-1881), famoso escritor russo conhecido principalmente por seus romances ditos psicológicos e/ou filosóficos. ↑

  14. Walt Whitman (1819-1892), amplamente reconhecido como um dos grandes poetas dos Estados Unidos e também famoso por seus versos livres. ↑

  15. Horace Logo Traubel (1858-1919), escritor estadunidense muito lembrado por sua amizade com Whitman. ↑

  16. Jean-François Millet (1814-1875), pintor realista francês que dedicou considerável parte de sua produção à representação da vida camponesa. ↑

  17. Émile Zola (1840-1902), famoso escritor francês considerado um dos precursores do naturalismo. ↑