Sobre a questão do Realismo Socialista
Tradução: Jessica Maki Kimura
Revisão e cotejo: Felipe Chaves Gonçalves Pinto
HTML: Felipe Chaves Gonçalves Pinto
Texto original: "Shakai shugi riarizumu no mondai nitsuite". In: Bunka shûdan, no. nov., 1933. Disponível em: Aozorabunko. Acesso em: 14/10/2026.
Este texto está licenciado por: Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-SA 4.0).
Nota: Esta tradução foi resultado das atividades desenvolvidas pelo "Núcleo de Literatura Proletária Japonesa" do Grupo de pesquisa pensamento japonês.
As inocultáveis conquistas do Primeiro Plano Quinquenal junto aos princípios básicos do Segundo Plano Quinquenal que foram divulgados em seguida, somados à contribuição da União Soviética em dispôr as questões do Realismo Socialista internacionalmente, são muito relevantes a nós, integrantes do Movimento de Literatura Proletária.
Na União Soviética, ainda que a base social para essa questão corrente na feitura da Literatura Proletária seja, em parte, logro da esfera do Movimento de Literatura Proletária praticado no Primeiro Plano Quinquenal, pode-se dizer também resultante da união do proletariado em outros ensejos, tais como a inclusão de novos trabalhadores e gestores de coletivos de agricultores, inúmeros romancistas proeminentes que se juntaram por efeito do contato de correspondentes da literatura de trabalhadores do campo, além de, da mesma maneira em que Stalin traz em seus discursos, os antigos intelectuais, pertencentes a organizações como “A forja” ou “Os companheiros de viagem” se citarmos apenas grupos de escritores, baseando-se nos preceitos que estabelecem o Socialismo atual, foram passando gradualmente para o lado do proletariado juntos. O fato de Máximo Gorky, já com mais de sessenta anos, ter se tornado membro do partido por ocasião da celebração do 15º aniversário da revolução no ano passado ficou gravado na nossa memória como uma nova e profunda impressão.
No entanto, ainda que esses ditos proeminentes romancistas proletários e os antiquados escritores intelectuais representem um estágio de uma grande variedade de avanços, sendo contribuintes para o desenvolvimento do complexo e multifacetado movimento pela relação que estabelecem com a visão de mundo do proletariado e, além disso, correspondentes em perspectiva e direcionamento com a instauração do socialismo, não implica afirmar que todos eles sejam marxistas por excelência.
Com a consolidação da vitória do proletariado nos campos da produção, da política e da construção cultural, os dirigentes da União Soviética, a fim de orientar e fazer florescer as possibilidades cada vez mais amplas de proletarização das massas, que se avolumavam e se elevavam principalmente no campo da literatura, propuseram a dissolução progressiva da RAPP[1], uma vez que a organização já não era capaz de satisfazer essa necessidade. Como palavra de ordem para o método de criação literária, erguendo o realismo socialista de maneira ampla, vigorosa e viva, bradaram a todos os escritores: “Retratem a construção do Socialismo!”.
Como pode ser notado até mesmo através de uma explicação simples como a que foi dada, o problema do Realismo Socialista não é ter sido moldado sobre a destruição da natureza da classe proletária, mas ser oriundo de uma questão que se apresenta como uma das formas concretas de realização da orientação política corrente, que os dirigentes da União Soviética vêm adotando desde a Nova Política Econômica de 1921, que consistiu em desenvolver o movimento da literatura proletária em escala internacional, isto é, para estabelecer a liderança do proletariado no campo da literatura. Fazendo uso do slogan “materialismo dialético como método de criação”, foi possível notar um aumento expressivo no novo grupo de escritores proletários e rurais. À medida que avançavam na instauração do socialismo, era perceptível a evidente transição de classe dos escritores pertencentes ao grupo de intelectuais, bem como o desenvolvimento variado e diversificado da literatura nas atividades das novas frentes administrativas. Para desenvolver e realizar, a partir de um ponto de vista mais elevado e seguindo o marxismo-leninismo, tanto essas possibilidades quanto as de uma proletarização de camadas ainda mais amplas do povo tiveram seus resultados e deficiências dos últimos anos submetidos a uma crítica corajosa e franca, e assim se partiu para um novo passo adiante.
O problema do Realismo socialista, que foi exposto por meio da experiência da União Soviética, é de elevada e profunda importância para o movimento literário proletário internacional. Isto porque imprime uma pista extremamente rica para que inúmeras pessoas, vivendo sob condições específicas de cada país, se juntem, levantando a bandeira única da literatura proletária.
No que diz respeito ao Japão, o conflito de classes tem se intensificado pouco a pouco. Sem que estejam efetivamente conscientes do seu pertencimento ao proletariado, as grandes massas de trabalhadores das cidades e do campo que não conhecem a revolução proletária, intelectuais radicais e cidadãos de classe média baixa, têm se rebelado contra a exploração e opressão naturalmente. Isso deve se intensificar cada vez mais. E, aproveitando esse condicionamento social, devemos nos apropriar dessa tendência radical e revolucionária que surge de maneira difusa, ainda que não seja o ideal da revolução proletária. Aos ativistas literatos que possuem os fatores e as demandas para se desenvolverem nessa direção, é importante que os faça compreender a realidade em que vivem de maneira clara, que tenham posse de um método de investigação e possam ter a noção da fundamentação pragmática da revolução proletária; dessa forma, compreenderão que, para elevar essa organização e as atividades de criação de um novo modelo, é imprescindível a fixação da liderança do proletariado. Acredito que é neste ponto que o problema do realismo socialista nos permite reavaliar os nossos atos do passado.
A dissolução e reorganização da RAPP, a formação de um único comitê da União dos escritores soviéticos, assim como o levante do problema do realismo socialista incidente no planejamento inicial, não significa seguir a intelectualidade, como algumas pessoas parecem compreender equivocadamente, nem defender uma concepção tecnicista que tenha sido abstraída e elevada acima das classes. Muito menos significa acompanhar as massas segundo um vulgar realismo que elimina por completo o caráter de classe e o caráter revolucionário.
O lema do método materialista-dialético na criação literária, que vinha orientando o movimento da literatura proletária japonesa, foi formulado a partir de uma base que se tornou necessária no processo de desenvolvimento da teoria da literatura proletária. No curso da luta contra a literatura burguesa semifeudal e do desenvolvimento do movimento da literatura proletária, esse método proporcionou aos escritores um olhar mais social, político e progressista para a realidade do mundo e os levou a compreender o realismo não a partir de um naturalismo estático, mas na direção do desenvolvimento social; estes são pontos que não podem ser ignorados. Ao mesmo tempo, e em contrapartida, não é possível deixar de lado a ocorrência da aplicação das regras de forma mecânica. À partir da perspectiva dos dias de hoje, é notável que se aplicou uma visão filosófica desse slogan, e não podemos deixar de apontar que, aos escritores da literatura proletária, foi conferido um ângulo oblíquo, como o de um olhar enrijecido. E, em uma auto análise atenta como esta, averiguando os resultados e as falhas, nós no Japão também devemos participar da discussão internacional sobre a questão do realismo socialista proposta pela União Soviética. Considero, porém, que a concepção que vem surgindo atualmente em alguns setores, algo como “Conseguem ver? O lema do método materialista-dialético na criação literária era um equívoco e, portanto, também estava errada a afirmação do caráter de classe da literatura proletária”, constitui uma atitude liquidacionista, incapaz de considerar cada etapa do movimento da literatura proletária no quadro de seu desenvolvimento como um todo, e representa também, a meu ver, a própria eliminação da missão histórica do proletariado.
Devemos decidir com um vigoroso debate público se aplicar o slogan do realismo socialista desta maneira, de forma automática, é válido para o Japão.
Considero que o levante da questão do realismo socialista constitui uma iniciativa de grande importância, que demonstra, tendo a União Soviética à frente, a crescente concentração das forças do proletariado internacional e, ao mesmo tempo, a elevação histórica das possibilidades de as amplas massas de cada país colaborarem com a revolução proletária. Isso não é uma questão entre tantas outras, desta ou daquela natureza, relativas à literatura proletária. Considero que se trata de uma parte séria do desenvolvimento fundamental por meio do qual o movimento literário é impulsionado para a frente, como avanço da frente de luta de todo o proletariado.
Novembro de 1933
Notas
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Associação Russa de Escritores Proletários era uma organização literária da URSS estabelecida em 1925. Através do patrulhamento ideológico, perseguiu escritores independentes e vanguardistas em nome de uma arte puramente proletária, sendo dissolvida por Stalin em 1932 para dar lugar à União dos Escritores Soviéticos. ↑