Sobre a literatura e as mulheres
Tradução: Jessica Maki Kimura
Revisão e cotejo: Beatriz Morelatto
HTML: Felipe Chaves Gonçalves Pinto
Texto original: "Fujin to bungaku no hanashi". In: Bungaku shinbun, 1932. Disponível em: Aozorabunko. Acesso em: 30/06/2026.
Este texto está licenciado por: Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-SA 4.0).
Nota: Esta tradução foi resultado das atividades desenvolvidas pelo "Núcleo de Literatura Proletária Japonesa" do Grupo de pesquisa pensamento japonês.
A nossa “Gazeta literária” estabeleceu, para esta edição em especial, uma “coluna para as mulheres”, e o fato de diversos artigos voltados à relação das mulheres com a literatura serem ativamente publicados daqui para frente nesta seção é uma imensa alegria. Acredito que não há uma divisão entre uma literatura proletária feminina e uma literatura proletária masculina. As vidas das mulheres e dos homens, enquanto proletários e camponeses, perpassam a expressão artística como uma só classe e assim integram a literatura proletária.
No entanto, se voltarmos nossos olhos para os problemas reais, das variadas experiências da intensa luta cotidiana das mulheres proletárias e rurais, será que elas estão suficientemente retratadas na literatura proletária japonesa?
Desativação de fábricas, salários não pagos, endurecimento das condições de trabalho, três milhões de desempregados e uma crise agrícola — a classe capitalista latifundiária finalmente deu início, na Manchúria e na Mongólia, a uma guerra de invasão imperialista e, com o sangue das massas trabalhadoras famintas, está avançando na redistribuição colonial e na guerra de intervenção contra a União Soviética.
O dia-a-dia das mulheres proletárias e camponesas segue sob estas circunstâncias — diante de uma opressão ainda maior do que a de homens miseráveis, situadas nas piores condições possíveis. Quando o capitalismo entra em crise, passa a explorar ainda mais cruelmente mulheres e crianças. Não apenas as faz trabalhar exaustivamente por salários inferiores à metade do pago aos homens. Privadas de seus maridos e irmãos — os provedores da família — pela guerra imperialista, quem acaba colocada na condição mais miserável são as mulheres proletárias e camponesas. E mais: na sua extrema astúcia, os capitalistas e latifundiários, para tornar essa exploração ainda mais conveniente, utilizam associações de moças e revistas oficiais para manter, a todo custo, o nível cultural dessas mulheres em uma condição precária, quase escrava.
Em todos os locais de trabalho, a sociedade capitalista explora as mulheres a ponto de lhes fazer cair os cabelos — e, quando elas finalmente reagem , são repreendidas violentamente sob gritos: ‘O que é isso, uma mulher insolente assim?! Comporte-se!’. Ainda que sejam intimidadas duramente, elas já não recuam mais: assim são as massas de mulheres proletárias e camponesas de hoje! Os campos de luta de classes das mulheres não se limitam, de modo algum, apenas a greves ou a conflitos no campo. Está entranhada na cozinha de todos os dias, no leito de parto, até mesmo em uma cebolinha de um sen comprada no verdureiro. A literatura proletária deve, sem exceção, descrever essas realidades como fatos relacionados à totalidade da vida dos proletários e camponeses.
Que não apenas autores homens escrevam, mas que também autoras mulheres proletárias apareçam mais e mais e, com suas experiências particulares, possam escrever com vivacidade, de um detalhe ao outro, sobre a vivência das mulheres das grandes massas em seus dias e noites de luta.
A Associação de Mulheres da União de Escritores Proletários do Japão está, ao mesmo tempo que pesquisa de que maneira devem seguir produzindo obras, estimulando esforços cada vez mais ativos à formação de correspondentes mulheres e à incorporação de escritoras, visando o desenvolvimento de círculos literários centrados nas mulheres. Nós devemos obter, ainda que seja uma a uma, cada vez mais integrantes mulheres em círculos das grandes massas trabalhistas, correspondentes mulheres, escritoras mulheres. O surgimento de uma nova mulher — uma escritora proletária e camponesa, uma correspondente — já é, por si só, uma prova de que a cultura proletária venceu, ainda que em parte, a classe dominante.
O “Dia Internacional da Mulher” deste ano, em 8 de março, está prestes a ser travado em meio à fascistização da classe dominante e à própria eclosão da guerra de agressão. Leitoras da “Gazeta literária”, membros dos círculos, correspondentes! Que preparativos vocês estão fazendo para essa significativa ‘jornada das mulheres’ como uma luta cultural? Será o dia em que as mulheres proletárias e camponesas do mundo darão as mãos e erguerão suas vozes: ‘Abaixo a guerra!’, ‘Abaixo o fascismo!’, ‘Defendam a União Soviética!’. Nós, que na realidade temos nossos maridos e irmãos arrancados pela guerra e somos oprimidas pelo aumento dos preços e pelo desemprego, não podemos permanecer de braços cruzados.
Já se passaram quase seis meses desde o início do Incidente da Manchúria; de fato, a partir da posição das mulheres, nos opomos à guerra…
〔Fevereiro de 1932〕