O cão que mata pessoas

Kobayashi Takiji

Tradução: Felipe Chaves Gonçalves Pinto

Revisão e cotejo: Jessica Maki Kimura

HTML: Felipe Chaves Gonçalves Pinto

Texto original: "Hito wo korosu inu", 1928. Disponível em: Aozorabunko. Acesso em: 31/10/2026.

Este texto está licenciado por: Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-SA 4.0).

Nota: Esta tradução foi resultado das atividades desenvolvidas pelo "Núcleo de Literatura Proletária Japonesa" do Grupo de pesquisa pensamento japonês e pelo Projeto de Extensão "Trabalhadores de todo o planeta, uni-vos: literatura proletária japonesa", da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

À direita, o Monte Tokachi se destacava nítido no céu azul como um Fuji feito em pintura barata. Como o lugar era alto, à esquerda, do outro lado, era possível ver as ondulações do terreno até muito longe, como um grande pano de embrulho estendido e cheio de dobras. No fosso de uma dessas dobras, uma linha costurava a paisagem e vinha subindo aos poucos na nossa direção. Era a estrada de ferro que seguia para Kushiro. O rio Tokachi também era visível. Parecia um arame depois de passado, como se fosse um brinquedo, pelas mãos de uma criança, mas só em alguns pontos reluzia ofuscante.

Era meio dia de um dia quente no auge do verão. 

Um sol continental, inclemente, absurdamente quente, parecia ameaçar lançar faíscas de fogo a qualquer momento. E os peões, cambaleantes, escavavam a colina, encharcados de suor, como se tivessem pulando após serem escaldados por água fervendo. Os olhos de todos estavam congestionados, entorpecidos, vermelhos como arenques podres e opacos.

Um capataz saiu correndo.

Outro saiu correndo atrás dele.

Quase cem peões levantaram de repente um alvoroço.

— Ih, fugiu!

— Mas o que cê fazeno! Seu idiota, seu traste!

O capataz estava com sede de sangue. Alguém foi golpeado lá adiante. Tum!, soou o som de carne sendo atingida diretamente.

Nesse momento o chefe chegou a cavalo. Entregou pistolas a dois ou três capatazes e logo mandou que perseguissem o fugitivo.

— Mas que idiotice ele foi fazer, hein.

Quem será? Logo será capturado. E aí o cão vai ficar feliz da vida de novo!

Lá embaixo, na linha férrea, dava para ver um vagão de passageiros que parecia de brinquedo subindo em nossa direção. Ouvia-se um som da locomotiva subindo com esforço, como que exausta. De vez em quando ela soltava, em círculos, uma fumaça branca como a respiração de uma manhã fria.

*

Ao cair da tarde, os peões voltaram do canteiro, como sempre, sob a guarda dos capatazes. Ao sol poente que batia nas costas, as figuras carregando picaretas e pás projetavam sombras compridas à frente. Justamente quando contornavam um morro para chegar ao alojamento, ouviram atrás o som de cascos de cavalo. Pegaram ele, todos pensaram, parando e olhando para trás. Era Genkichi.

O corpo de Genkichi, encharcado, estava todo amarrado com uma corda. E a ponta da corda estava presa ao cavalo montado pelo capataz. Quando o cavalo acelerava um pouco (e o capataz o acelerava de propósito), o fugitivo rolava em cambalhotas enquanto era arrastado assim mesmo pelo caminho pedregoso da montanha. O quimono curto estava rasgado, e sangue saía da testa e das bochechas. O sangue se misturava com a terra e ficava negro como piche.

Ninguém disse nada e todos voltaram a caminhar.

(Genkichi, que andava mal das pernas, costumava dizer que, antes de morrer, queria de qualquer jeito ver mais uma vez a mãe que tinha deixado em Aomori. Tinha vinte e três anos. Souberam depois que Genkichi tinha se jogado, com uma única tábua, no rio Tokachi, que dois dias antes, com a chuva, estava todo barrento e corria formando redemoinhos.)

*         *

Depois da comida, o capataz chamou todo mundo para o terreiro.

De novo!

— Eu num quero ir, não, vû..., diziam todos.

Ao chegarem ao terreiro, estavam o chefe e os capatazes. Genkichi, ainda amarrado, estava deitado de bruços no centro do terreiro. O chefe, acariciando as costas do cão, falava alguma coisa em voz alta.

— Tá todo mundo aqui?, perguntou o chefão.

— Tá todo mundo aí, né?, o capataz perguntou aos homens e, em seguida, respondeu ao chefão:

— Está todo mundo, senhor.

— Então, ’mbora começar! Agora, todo mundo vê se olha bem pra verem no que dá fazer esse tipo de coisa!

O chefe arregaçou a barra do seu quimono de verão e chutou Genkichi.

— Levanta!

O fugitivo se levantou cambaleando.

— Consegue ficar de pé, hein?, disse, e, de repente, acertou-lhe a cara com o punho. O fugitivo cambaleou exatamente como num gesto definido de teatro. Sua cabeça caiu para a frente, sem força. Então cuspiu. Sangue escorreu por sua boca. E cuspiu sangue duas ou três vezes.

— Seu idiota, vejam só!

A frente do quimono do chefe se abriu, mostrando os pelos do peito. Então ele fez sinal ao capataz:

— Manda ver!

Um deles desamarrou as cordas do fugitivo. Então o capataz virou na direção de Genkichi um cão Tosa quase da altura de um homem adulto. O cão rosnava baixo, lá no fundo da barriga, e dava para ver a força se concentrando nas patas.

— Agora!, disse.

O capataz soltou o cão Tosa.

O cão arreganhou os dentes, esticou as patas dianteiras e ergueu bem alto o traseiro... Genkichi tremia todo, mas de repente se endureceu e ficou paralisado. Por um instante, fez-se completo silêncio. Não se ouvia a respiração de ninguém.

O cão Tosa soltou um ladro e saltou. Genkichi gritou alguma coisa e agitou as mãos. Fez um gesto como o de um cego tateando à frente. O cão, num só salto, cravou os dentes nele. Genkichi e o cão se enroscaram e rolaram duas ou três vezes pelo chão de terra. O cão se afastou. Havia sangue em volta da boca. Então deu duas ou três voltas em torno do chefe, sacudindo o corpo. Genkichi, caído, ficou por um instante se contorcendo sem forças. Mas se levantou cambaleando. E o cão Tosa, sem latir, saltou sobre ele. Genkichi foi arremessado sem resistência e bateu contra o muro que cercava o terreiro. O cão avançou de novo! Genkichi se virou para o cão. Então, apoiando as costas no muro, foi se levantando escorregando com as costas. Todos, inadvertidamente, olharam para ele. O rosto voltado para nós estava todo coberto de sangue, irreconhecível. Dava para ver o sangue descer do queixo pela garganta e escorrer pelo peito, que estava totalmente nu e arfava agitado. Ao se levantar, Genkichi limpou o rosto com o braço, como se tentasse encarar o cão. O cão deu um latido, como que triunfante, e no mesmo instante Genkichi disse algo incompreensível e bem rápido, e então gritou:

— Não tô com medo! M-mãe!

E, girando o corpo de repente, fez menção de escalar o muro, agarrando-se como um gato. O cão cravou os dentes nele por trás.

*         *

Naquela noite, dois peões, acompanhados por um capataz, carregaram o cadáver de Genkichi para a montanha. Cavaram um buraco e o enterraram. Era uma noite de lua, e o Monte Tokachi estava mais nítido do que de dia. Quando jogavam terra no buraco com a pá, o som que fazia ao bater na caixa lá embaixo era perturbador.

Na volta, um deles, justamente quando o capataz estava urinando, disse aos companheiros:

— Mas, escuta o que tô te falando, um dia eu ainda vou matar aquele cão...