Último dia do ano
Tradução: Felipe Chaves Gonçalves Pinto
Revisão e cotejo: Jessica Maki Kimura
HTML: Felipe Chaves Gonçalves Pinto
Texto original: "Ôtsugomori". In: Bungaku-kai, vol. 24, Tóquio, 1894. Disponível em: Aozorabunko. Acesso em: 30/06/2026.
Este texto está licenciado por: Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-SA 4.0).
Sumário
Primeira metade
O poço de polia munido de doze braças de corda. A cozinha, faceando o norte, gélida pelo seco e frígido vento decembrino que atravessa o cômodo em lufadas sonoras. “Ah!, isso assim não dá!”, disse a criada. A angústia de minutos, que parecem horas, cuidando do fogo parada em frente ao fogão a lenha, de ouvir xingamentos por causa de lascas de lenha ou outra ninharia qualquer!
Inicialmente, o que ouviu da anciã da casa de despacho de empregadas foi que “são seis os filhos e filhas do patrão, mas só o herdeiro e os dois mais novos estão sempre em casa. A patroa é um pouco temperamental, mas se você souber ler o humor dela, seu rosto, seus olhos, não vai ter muitos problemas. No fim das contas, ela gosta de um elogio bem dado, então, dependendo de como você se portar, não vão faltar colarinhos, utensílios de toucaria ou cordões para avental. A fortuna da família é a maior da vizinhança, embora também não fiquem para trás na pão-duragem. Felizmente, o patriarca é mais generoso, então talvez você consiga uns trocadinhos de vez em quando. Se não gostar do serviço, basta me mandar um cartão postal e nem precisa explicar muito. Se quiser que eu procure outro lugar pra você, é só falar. No fim das contas, o segredo de servir bem é saber quando mostrar ou esconder a cara, sabe?” Diante da anciã que dizia coisas tão terríveis, percebeu que, no fim, tudo dependia apenas de sua disposição e não havia razão para depender desta pessoa. Caso trabalhasse com empenho e seriedade, não haveria motivo para não cair nas graças deles, e foi com esse espírito que aceitou servir a esse patrão algo demoníaco.
Três dias após o primeiro encontro entre a criada e seus empregadores, a jovem senhorita da família, de sete anos, tinha prática de dança pela tarde. Enquanto preparativo, a criada foi instruída a escovar e lavar a banheira e esquentar a água para o banho matinal. Numa aurora de frígida geada, a patroa do seu leito confortável e aquecido golpeava seu cinzeiro, “vamos, vamos”. Não havia despertador mais efetivo e, sem esperar que a ordem se repetisse uma terceira vez, prendeu diligentemente as mangas do quimono acima da faixa de obi. Diante do poço, a luz da lua ainda restava em sua pia e o vento frio, ferindo a pele como agulhas, varreu da lembrança qualquer vestígio de sonho. A banheira, por se tratar de uma instalação única com a boca do fogo posta abaixo do fundo da cavidade, não era muito grande, mas eram necessárias treze viagens com dois baldes-de-mão transbordando d’água para enchê-la. Suava muito durante o transporte dos baldes enquanto se equilibrava nos dentes desgastados e arredondados, como uma roda do dharma, de um tamanco de correias frouxas e próprio para serviços com água, o que a obrigava a erguer, desengonçada, o pé mais do que o normal. Sobre tais tamancos e carregando fardos pesados, seus pés incertos acabaram escorregando na crosta de gelo ao pé da pia. Antes que pudesse esboçar qualquer reação, veio ao chão batendo com força a canela na lateral do poço, o que deixou um vívido hematoma roxo em sua pele que, de tão branca, envergonharia a própria neve. Os baldes-de-mão também foram lançados ao solo e, apesar de um se manter inteiro, o outro acabou perdendo seu o fundo.
Não calculava o valor daquele balde, mas a patroa, com uma grossa veia azul e pulsante atravessando a testa, a encarava fixamente desde que a refeição matinal fora servida, portando-se como se aquilo pudesse levar à ruína de sua fortuna e não se dignou a dirigir-se a criada durante todo o dia. Após aquele dia, a patroa, fiscalizando até a forma como os hashis eram manuseados, repetia, do romper do dia ao cair da noite, o mesmo sermão, “as coisas desta casa não são de graça, se pensa que pode tratá-las negligentemente só porque são do seu amo, se arrependerá amargamente!”. Sentindo a vergonha apertar seu jovem peito ao ser retratada dessa forma para todos que até ali vinham, começou a manejar cuidadosamente tudo que lhe chegava às mãos e, finalmente, foi capaz de eliminar quaisquer erros descuidados.
Há muitos que empregam criadas por aí, mas não há casa que as troque tanto quanto a dos Yamamura. Ter duas por mês já é coisa corriqueira. Algumas voltam em três ou quatro dias, outras fogem na primeira noite. “Se alguém perguntasse quantas já passaram por alí desde que o mundo é mundo, já se imaginaria a senhora da casa dobrando os dedos, contando nos punhos da manga. Pensando bem, Omine é mesmo uma moça de fibra. Se alguém a tratar com crueldade, certeza que o castigo divino virá na hora! Quer dizer, por mais que Tóquio seja vasta, não existe mais quem aceite ser criada dos Yamamura, sabe? É realmente admirável. Uma postura fantástica!”, algumas pessoas elogiavam. “Acima de tudo, seu rosto é de um graça sem defeitos”, os homens, por seu lado, adiantavam-se em constatar.
Desde o outono, o único tio de Omine adoeceu e a loja de quitanda que ele mantinha acabou fechando sem muito alarde. Dizem que agora vive, ainda no mesmo bairro, nos fundos de umas casas geminadas onde reabriu sua loja. Mas, estando ela sob as ordens de patrões de gênio tão difícil e tendo recebido o salário adiantado, é como se tivesse vendido seu próprio corpo: por mais que o coração lhe pesasse o peito, não conseguia sequer fazer uma visita ao tio. Cogitou ir até lá numa brevíssima brecha enquanto realizava alguma tarefa fora de casa para a família, mas eram tão rígidos com tempo que só faltava controlarem cada passo dado, cada centímetro percorrido. Pensou em correr até lá, mas as más línguas são sempre mais rápidas que as pernas e, assim, receava colocar todo seu suado esforço a perder. O tio doente só ficaria mais preocupado caso ela ficasse desocupada e, além do mais, se sentia péssima ao se imaginar dando um dia sequer de trabalho para a miserável casa do tio. Deste modo, conteve-se com o envio de cartas e seguiu seus dias mantendo-se, em corpo, ali, enquanto o coração ia longe.
Chegado o mês de dezembro, quando tudo no mundo parece tomado por uma pressa inquieta, as senhoritas da casa ao ouvirem sobre a estreia de anteontem de tal e tal espetáculo de figurinos luxuosos ou de tal e tal nova peça cômica Kyôgen especialmente divertida agitavam-se em “não podemos perder essa!”. Havia uma apresentação no dia quinze e, coisa rara, foi anunciado que todos da casa poderiam ir. O contentamento em poder acompanhar a família era natural, mas, órfã de pai e mãe e com o seu único tio efermo e acamado, não lhe parecia certo sair por aí como se estivesse a passeio sem, contudo, nunca ter sequer lhe feito uma visita. Não haveria o que ser feito caso sua intenção fosse mal recebida, mas pelo menos poderia pedir para trocar o passeio por uma folga. Assim, talvez também por sua rotineira assiduidade, a autorização chegou no dia seguinte, “vá e volte cedo”. Ao ouvir isso, acreditava ter agradecido respeitosamente a autorização, mas só se lembrava mesmo de estar dentro do carro impaciente se perguntando quanto faltava para chegar à Koishikawa.
O nome Hatsune-chô, isto é, Bairro do Primevo Cántico, soa elegante aos ouvidos, mas na realidade o lugar não passa de um reduto de miséria onde o rouxinol chilreia lamentando a pobreza do mundo. Ali vivia o Honesto Yasubei, homem de testa reluzente como uma grande chaleira, tão brilhante que a própria divindade a poderia habitar[1]. Com este semblante enquanto marca registrada, ele servia aos arredores, de Tamachi a Kikusaka, provendo o povo com berinjelas e rabanetes. Trabalhando com pouca verba, não tinha meios com que oferecer pepinos em cestos enfeitados ou os primeiros cogumelos matsutake envoltos em palha e precisava se contentar com o que era barato e volumoso. “As coisas que o Yasu da quitanda traz são sempre tão previsíveis quanto um livro de contas”, riam, mas a clientela era-lhe fiel e, por caminhos tortuosos, ele conseguia molhar a boca de sua família de três pessoas, além de cumprir até com o dever de enviar o pequeno San’nosuke, de oito anos, à escola, o que lhe custava cinco rin[2]. Contudo, em certa manhã em meio a rispidez do outono em finais de setembro e contra um vento súbito que cortava a pele, Yasubei carregou o fardo das compras de Kanda até sua morada e, logo em seguida, caiu com febre e severas dores nos ossos. Três meses se passaram até o dia de hoje sem que pudesse voltar aos negócios. Os parcos recursos foram minguando até que se viram forçados a vender inclusive as varas de ombro em que carregavam os cestos com os produtos. Sem sustento para manter a loja na rua de frente, e não sendo pessoa de se importar com a vergonha alheia, mudaram-se para um casebre de fundos de cinquenta centavos de iene ao mês, na esperança de tempos melhores. A mudança foi desoladora, na carroça, apenas o enfermo; os pertences mal enchiam uma das mãos. Foram se esconder num canto qualquer do mesmo bairro.
Omine, descendo do carro, buscava aqui e acolá pelo novo paradeiro, espiando entre as lojas de doces que exibiam pipas e balões de papel para atrair as crianças, procurando o rastro de San’nosuke. Não o vendo, sentiu um aperto no peito, mas ao lançar o olhar pela rua, avistou no lado oposto um menino franzino que carregava um frasco de remédio. Parecia mais alto e excessivamente magro para ser San’nosuke, mas a silhueta era tão semelhante que ela correu até ele. Ao encará-lo, ele disse “mana!” e, ela, “então era você mesmo San!”. Foram caminhando juntos, embrenhando-se por entre as tabernas e lojas de batatas e passando por becos escuros onde as tábuas sobre o esgoto rangiam sob os seus pés. San’nosuke correu na frente e, da soleira da porta, gritou a plenos pulmões “papai!, mamãe!, trouxe a mana de volta comigo!”
“Mas, como, Omine está aqui?”, Yasubei disse fazendo menção de se levantar, enquanto sua esposa interrompia o trabalho manual de costura ao qual se dedicava com afinco. “Ora, ora, mas isso sim é uma raridade!”, disse ela, radiante, como se tomasse as mãos da sobrinha. Ao olhar em volta, Omine viu apenas um único armário no aposento de seis tatames, não havia cômodas nem baús, como era de se esperar naquela casa, e até o braseiro de cobre com o qual estava há muito habituada tinha desaparecido. Em seu lugar, um aquecedor quadrado de cerâmica Imado[3], posto dentro de uma outra caixa semelhante, parecia ser o único utensílio que restara. Soube então que nem pote de arroz possuíam mais. “Que triste destino!”, pensou Ohime, com os olhos marejados ao lembrar que, sob aquele céu de dezembro, havia quem se desse ao luxo de ir ao teatro.
“Tio, por favor, deite-se, o vento está frio”, disse ela, cobrindo os ombros dele com uma coberta fina e dura como um biscoito de arroz velho. “Vocês parecem ter passado por maus bocados... A senhora, tia, também parece mais magra... Peço que não adoeça de tanto se preocupar. Mas me diga, ele tem melhorado um pouco nesse tempo? Recebo as notícias por carta, mas a agonia de não ver com os meus próprios olhos não me deixava em paz. Estava tão ansiosa pela folga de hoje. Não se preocupe com a casa, se o tio recuperar a saúde, voltar para a loja da frente será coisa simples. Por favor, cure-se logo, tio. Eu queria ter trazido algo para o senhor, mas o caminho é longo e o coração andava apressado. Parecia até que o passo do condutor da carroça estava mais lento que o de costume, e acabei passando direto pela loja de doces que o senhor tanto gosta. Este dinheiro aqui é pouco, mas é o que sobrou das minhas economias. Quando um parente de Kojimachi visitou meus patrões e a matriarca aposentada sofreu com dores de vermes, passei a noite inteira massageando suas costas e, então, ela me deu isso dizendo para eu comprar um avental novo. O local onde estou servido é rigoroso, mas os visitantes de fora me ajudam bastante, então pode ficar feliz e despreocupado, tio. O trabalho também não é difícil. Esta bolsa e este lenço de seda também foram todos presentes do pessoal. O lenço é bem simples, mas peço que a senhora use, tia. A bolsa, se eu alterar um pouco a forma, servirá bem como saquinho de merenda para o San’nosuke. E por falar nele, ele ainda frequenta a escola? Se tiver exercícios de caligrafia, possar dar uma olhadinha neles…”, e assim, as palavras de Omine seguiam uma após as outras.
Quando Omine tinha sete anos, seu pai, segurando uma espátula para rebocos e no momento em que ia dar instruções a um subordinado, caíra de um andaime enquanto trabalhava em uma obra num armazém. Ele, tão acostumado com o trabalho, errara o passo. Não seria estranho se aquele dia coincidisse com a estrela negra do calendário, a morte de Buddha[4]. Caiu sobre pedras de pavimentação que haviam sido removidas e empilhadas, batendo a cabeça com tamanha força que de nada adiantou o socorro. Todos se horrorizaram com os fatídicos 42 anos de idade, véspera do período mais obscuro, em que tudo aconteceu[5]. A mãe de Omine, irmã de Yasubei, foi acolhida por ele, mas faleceu dois anos depois, vítima de uma febre repentina. Desde então, Omine via nos tios seus próprios pais, e sua gratidão pelos dezoito anos de criação era indescritível. San’nosuke era para ela como um irmão caçula. Omine chamava-o para junto de si, acariciava suas costas e examinava seu rosto dizendo “deve estar sendo solitário e triste para você com o papai doente, não é? O Ano Novo está chegando e a mana vai comprar algo para você, tá bem? Não vá dar trabalho à mamãe com teimosias, heim”. Nisto, o pai, com a voz embargada e debaixo das cobertas, interrompeu dizendo “dar trabalho? Escute, Omine, minha filha. Ele tem apenas oito anos, mas já é grande de corpo e de espírito. Desde que caí de cama, não há quem ganhe o pão e as despesas só aumentam. Vendo todo nosso sofrimento, ele começou a sair com o rapaz da loja de conservas. Saem para comprar amêijoas e ele as carrega nos ombros por onde as pernas aguentarem. Se o rapaz vende oito centavos de iene, nosso San’nosuke garante dez sem falta. Talvez os deuses vejam sua piedade filial... De todo modo, o dinheiro do remédio vem do trabalho dele. Ele merece todos os elogios, Omine”.
A tia, também em lágrimas, completou, “ele gosta tanto da escola que nunca nos deu trabalho. Comia o desjejum e corria para lá e às três horas, quando as aulas terminavam, voltava direto, sem travessuras pelo caminho. Não é por ser meu filho, mas os professores sempre o elogiaram. É de cortar o coração de uma mãe vê-lo, por causa da pobreza, carregando cestos de amêijoas e calçando naqueles pequenos pés sandálias de palha nesse frio cortante”. Omine abraçou San’nosuke com força. “Mas que piedade filial sem igual! Mas, ainda que seja grandinho, oito anos ainda são apenas oito anos. O jugo da balança não machuca seus ombros? As cordas das sandálias não cortam seus pés? Peço que me perdoem e, de hoje em diante, voltarei para casa para cuidar do tio e ajudar no sustento de casa. É um pecado que até hoje cedo eu estivesse reclamando do gelo na corda do balde do poço sem saber de nada disso aqui. Como posso vestir longos quimonos enquanto ele, em idade escolar, carrega amêijoas? Tio, vou pedir as contas, eu não volto mais para aquela casa!”
Ela chorava, transtornada. San’nosuke, quietinho, deixava as lágrimas caírem, baixando o rosto para escondê-las; via-se em seu ombro a roupa gasta, com os pontos de costura expostos de tanto carregar peso. Yasubei, porém, proibiu terminantemente que ela deixasse o emprego. “Sua intenção me alegra, mas o que uma mulher faria aqui? Além disso, você já pediu adiantamentos ao seu patrão, não dá para simplesmente dizer ‘bem, é isso’ e sair. O primeiro emprego é fundamental. Não quero que pensem que você voltou por falta de perseverança. Trabalhe com dedicação. Minha doença não durará para sempre e assim que eu melhorar um pouco, retomarei o comércio. Ah, se passarmos esta quinzena e o ano acabar, o Ano Novo primaveril trará coisas boas. Paciência, todos nós precisamos de paciência. San’nosuke, aguente firme, meu jovem. Omine, aguente firme!”
Ele conteve as lágrimas. Sem poder oferecer um banquete à visita rara, serviram-lhe o que ele gostava: bolinhos Imagawayaki e batatas cozidas. “Coma bastante”, diziam eles, e as palavras eram fonte de felicidade para Ohime. Contudo, a aflição dentro da casa com a proximidade do último dia do ano era visível. Não era uma dor física, mas uma angústia no peito já que quando Yasubei caiu de cama, tinham tomado dez ienes emprestados de um agiota de Tamachi por um prazo de três meses. Com os juros equivalente a um iene e meio descontados na fonte, recebeu apenas oito ienes e cinquenta centavos. O prazo vencia agora, no fim de dezembro, e não havia como pagar. Marido e mulher discutiam em voz baixa. Ela, trabalhando até sangrar a ponta dos dedos, não conseguia ganhar dez centavos por dia e falar com San’nosuke de nada adiantaria.
“Os seus patrões, Omine, possuem centenas de casas geminadas de aluguel em Shirokane-Daimachi e vivem numa opulência invejável. Lembro de quando fomos até o portão daquela mansão e vimos aquela construção de armazéns que não se faria com menos de um milhar de iene. Diante de tamanha fortuna, pensei comigo se o seu patrão não haveria de negar um pequeno favor a uma criada de confiança que já estava lá há um ano. Se conseguíssemos chorar uma renegociação de dívida neste fim de mês e pagássemos novamente os juros de um iene e meio para acalmar o credor, ganharíamos mais três meses de prazo. Pode parecer ganância pedir isso, mas mesmo que compre bolinhos de arroz com o mais barato dos vendedores ambulantes, não quero que o San’nosuke, antes mesmo de crescer, veja os pais sem terem sequer os hashis para a sopa de zōni no Ano Novo. Preciso de dois ienes até as vésperas do Ano Novo, Omine. Sei que é difícil, mas peço que tente esse recurso”. Omine refletiu por um instante e disse “está bem, vou fazer o que posso. Se for difícil, pedirei como adiantamento do meu salário. Embora a aparência da mansão seja de riqueza, sei que em todo lugar é difícil lidar com dinheiro, mas por essa quantia, não acredito que recusariam se eu explicasse o motivo. Para não correr nenhum risco de me indispor com eles, voltarei agora. Minha próxima folga será na alta primavera, espero que até lá possamos todos rir juntos”, disse aceitando o encargo. “Como nos enviará o dinheiro? Devo mandar o San’nosuke buscar?”, perguntou. “Sim, por favor. Na véspera de Ano Novo estarei muito ocupada, mas farei o possível para deixar tudo pronto até antes do meio-dia. Sinto muito, meu pequeno San. Vai ser uma longa viagem, mas te peço que vá até lá por favor”.
Com o compromisso selado, Omine partiu.
Segunda metade
Ishinosuke, o filho primogênito dos Yamamura, era, diferente das irmãs, filho de outra mãe e, por isso, o afeto do pai para com ele sempre fora escasso. Há dez anos chegava-lhe aos ouvidos a conversa de que seria dado em adoção para que a herança passasse às mãos das irmãs mais novas, plano que ele ouvia sem o menor agrado, mas achava cômico que, nos tempos de hoje, não o pudessem deserdar de vez. Entregando-se aos prazeres conforme o seu capricho, esquecido das lágrimas da madrasta e das ordens do pai, mergulhou no desregramento desde a primavera de seus quinze anos. Tinha uma estampa viril e um olhar que transparecia astúcia. Embora de pele escura, possuía um semblante atraente que despertava os cochichos das moças da vizinhança. Contudo, seu único norte era a desordem. Frequentava os bairros de prazer de Shinagawa, mas sua farra não terminava alí, costumava cruzar a cidade sobre carroças em disparadas no meio da noite para despertar os malandros de Kurumamachi, esvaziando o fundo da carteira para exigir bebidas e petiscos, fazendo da extravagância o seu caminho. “Para nós da família, entregar-lhe o patrimônio seria como atear fogo a um armazém de petróleo, tudo viraria fumaça e cinzas, e não vai ter nada que possamos fazer. Além disso que restaria para os irmãos mais novos?” Assim pensava a madrasta, cujas queixas ao pai eram incessantes. Por outro lado, não haveria alma no mundo disposta a aceitar tal devasso como filho adotivo. Decidiram, então, em conselho íntimo, separar-lhe uma quantia em dinheiro para que vivesse como um herdeiro afastado, sob um registro civil próprio[6].
Ishinosuke, porém, ouvia tais propostas com desdém, sem se deixar prender na armadilha. “Estão me oferecendo dez mil ienes e um estipêndio mensal para que minhas aventuras não sejam afetadas. Mas caso meu pai vier a faltar, eu serei o patriarca da casa e vocês deverão me reverenciar como tal. Mas, se querem que eu me torne senhor de minha própria casa e deixe de trabalhar em favor desta, que assim seja, se é o que desejam”, respondia, com palavras ácidas apenas para atormentá-los.
Ele ouvia boatos sobre o crescimento da fortuna da família, o número de casas de aluguel havia aumentado e os lucros, dobrado. “Mas que engraçado, que engraçado! Estão acumulando tanta fortuna para deixar para quem? Não sabem que um grande incêndio pode começar numa simples lamparina de altar? Devem ter esquecido que o segundo nome do primogênito é justamente ‘bola de fogo’ e que ele vive rolando por aí!” Ishinosuke já tinha decidido que Isarago seria o local da próxima grande bebedeira de Ano Novo e, para alegrar os pobres daquela região, dizia “em breve arrancarei um dinheiro da minha família e darei um ótimo ano novo para vocês!”
Quando se anunciava a volta do irmão mais velho, as irmãs, amedrontadas, evitavam-no como se tocassem em uma ferida inflamada. Todo o que ele falava era acatado e, nisto, seu egoísmo era ainda mais atiçado. Com ambos os pés enfiados no kotatsu[7], ele exigia água e mais água para aplacar a embriaguez, numa perturbação sem limites. A madrasta, embora o odiasse, sentia o peso das aparências. Escondendo sua língua ferina, cobria-o com uma pequena coberta para que não se resfriasse e arrumava-lhe o travesseiro com desvelo. Ao mesmo tempo, entregava-se à tarefa de limpar os peixinhos secos para os preparativos do dia seguinte enquanto murmurava para que fosse ouvida ao pé do travesseiro de Ishinosuke, “se deixar nas mãos dos outros, vai ser tudo perdido!”.
O meio-dia se aproximava e Omine, aflita com a promessa feita ao tio, buscava um momento em que o humor da patroa estivesse favorável. Sem tempo a perder, desfez o lenço que prendia o cabelo e, aproximando-se com humildade, suplicou: “sobre o que lhe roguei há alguns dias, minha patroa... Pode soar indelicado pedir em hora tão atarefada, mas trata-se de um dinheiro que prometi entregar impreterivelmente logo após o meio-dia. Se a senhora puder me valer, será a salvação do meu tio e minha maior alegria! Serei eternamente grata por este favor enquanto ainda viver”, disse ela, esfregando as mãos em sinal de súplica. Quando Omine mencionara o assunto pela primeira vez, a resposta da patroa tinha sido vaga, mas, ao fim, parecia um “sim”. Acreditando naquelas palavras e temendo ser impertinente se insistisse demais num dia difícil, Omine aguardou até aquele momento. Mas agora era a manhã da véspera do Ano Novo, o prazo final, e a patroa nada dizia, como se tivesse esquecido.
Forçando-se a vencer a vergonha diante da urgência que a assolava, Omine expôs sua necessidade. A patroa, contudo, fez um semblante de espanto e perplexidade, como se ouvisse um absurdo qualquer. “Mas do que você está falando? De fato, ouvi sobre a doença do seu tio e essa história das dívidas, mas em momento algum eu disse que a gente adiantaria esse valor. Você deve ter entendido mal. Não tenho a menor lembrança de tal compromisso”.
Ah, aquela negação era o seu número de mestre; tamanha era a sua falta de compaixão!
As filhas da casa, trajando quimonos de manga curta confeccionados com seda primorosamente tecidas em padrões com flores e folhas outonais, desejavam apenas ostentar o brilho de suas vestes de primavera, ajustando as golas e sobrepondo as bainhas para admirar e serem admiradas. Para elas, a visão do estorvo do irmão mais velho era um fardo insuportável. “Saia daqui depressa! Vá logo embora logo!”, pensavam elas, embora não ousassem o dizer. A mãe, por sua vez, mal continha o seu gênio tempestivo inato. Acaso um monge sábio a visse naquele instante, encontraria uma alma envolta em labaredas e fumaça negra, com o coração em pleno delírio de fúria.
E as palavras que ela proferia! O dinheiro é, de fato, o remédio que vira veneno. Embora soubesse perfeitamente ter aceitado o encargo, que mal haveria em negá-lo agora? Com um desdém cortante, reafirmou que a outra devia ter entendido mal e, soprando anéis de fumaça de seu cigarro, deu o assunto por encerrado com indiferença.
Oh, por acaso seria uma fortuna?! São apenas dois ienes! E tendo dado o seu consentimento verbal, não poderia ter caducado em menos de dez dias! Olhe lá, naquela gaveta da escrivaninha de escrita, há um maço de notas ainda intocado. Dez, vinte notas... Omine não queria tudo, bastavam-lhe apenas duas para ver a alegria do seu tio e o sorriso da sua tia, para que o pequeno San’nosuke pudesse levar os hashis à sopa de Ano Novo! Só de pensar nisso, Omine sentia um desejo incontrolável por aquele dinheiro. Odiou a patroa com todas as suas forças, mas tamanha era a sua amargura que as palavras lhe fugiram. De temperamento sempre dócil, Omine não possuía o artifício de encurralar os outros com lógica ou argumentos e, assim, retirou-se cabisbaixa para a cozinha. Naquele exato momento, ecoou o estrondo profundo do canhão do meio-dia[8], cujo som, em tal circunstância, pareceu reverberar dolorosamente dentro do seu peito.
“Rogo para que a senhora minha mãe venha sem demora! As dores começaram pela manhã e o momento do parto se aproxima. Sendo a primeira vez, o patrão está em desvario, e numa casa sem anciãos, a confusão é indescritível. Que venha agora, neste instante!”, dizia o recado. Tratava-se de um parto perigoso, de vida ou morte. O chamado vinha da filha em Saiôji, que enviava uma carruagem para buscar a mãe. Sendo véspera de Ano Novo, não havia espaço para recusas. A patroa via-se dividida, em casa havia dinheiro e o enteado vadio dormia bem ali, mas, como não podia se dividir em duas e arrastada pelo peso do afeto materno, subiu à carruagem. Partiu amaldiçoando o temperamento despreocupado do marido, que naquela altura do dia certamente estaria em alguma pescaria. A patroa nutria, naquele momento, um profundo rancor por aquele pescadorzinho inveterado[9] do marido.
Nesse desencontro, chegou San’nosuke a Shirokan- Daimachi. Encontrou o lugar sem erro, mas, vendo a própria figura miserável, temeu envergonhar a irmã e espiou temeroso pela entrada de serviço. Omine, que chorava diante do fogão, ocultou as lágrimas ao avistá-lo. Preocupada em pensar no que faria, não conseguia sequer dizer “chegou direitinho hein” ao pequeno. “Mana, não vão brigar comigo se eu entrar? Vou conseguir levar que tinha prometido? Papai disse que era pra eu agradecer muito ao patrão e à patro”, disse a criança com o rosto iluminado pela inocência de quem nada sabia. Omine sentiu uma dor aguda. “Espere um pouco, tenho algumas coisinhas para terminar” disse ela, correndo para vigiar o movimento da casa.
As jovens senhoritas estavam no jardim, absortas no jogo de peteca, o criado ainda não tinha voltado de uma obrigação fora de casa, a costureira estava no segundo andar e, por ser surda, não oferecia perigo. E o jovem herdeiro? Estava no auge de um sonho profundo, enfiado no kotatsu da sala de estar.
“Rogo a vós, deuses e budas! Tornar-me-ei uma pessoa perversa. Não é minha vontade, mas não me resta outr alternativa. Se houver castigo, que caia apenas sobre mim. Meu tio e minha tia nada sabem disso, portanto, perdoai-os. É um sacrilégio, mas permiti-me que eu roube este dinheiro!”
Da gaveta da escrivaninha que já conhecia, retirou apenas duas notas do maço. Após pegá-las, sem saber se vivia um sonho ou a realidade, entregou-as a San’nosuke e apressou sua partida. Seria tolice supor que ninguém tivesse visto tudo aquilo?
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Perto do cair da noite daquele mesmo dia, o patrão regressou da pescaria com o semblante radiante de um Ebisu[10]. Logo em seguida, chegou a patroa, exultante pelo sucesso do parto, transbordando amabilidade até mesmo com o condutor da carruagem que a trouxera. “Diga-lhes que voltarei a visitá-los assim que os afazeres desta noite findarem e que, amanhã bem cedo, enviarei sem falta uma das irmãs para ajudar”, recomendou ela. Complementando ainda com infrequentes agradecimentos, deu ao homem uma gratificação para as velas e, suspirando, exclamou: “ai de mim, que pressa! Quem me dera poder tomar emprestado o corpo de alguém desocupado por um instante. Omine, as folhas do espinafre-mostarda já estão cozidas? Lavou as ovas secas do arenque? O patrão já voltou? E nosso herdeiro?” Esta última pergunta, fez em voz baixa. Ao ouvir que, em relação a isto, tudo ainda estava na mesma, franziu a testa.
Ishinosuke estava incomumente quieto naquela noite. Embora os três primeiros dias do Ano Novo devessem ser celebrados em família, mas aquilo tudo lhe era um insuportável. As saudações que precisava fazer a todas aquelas pessoas em hakamas formais eram-lhe enfadonhas, e também já estava farto dos sermões. Não encontrando beleza alguma nos rostos de seus parentes, não sentia o menor desejo de vê-los. Como havia feito um compromisso para aquela noite com seus amigos das ruelas de fundo, decidiu partir. “Estou indo agora e na primavera voltarei para receber as vossas diversas bênçãos. Já que estamos no limiar de um tempo festivo, quanto me dareis de presente de fim de ano?”, perguntou ele. Era por esse dinheiro que ele aguardava a volta do pai, deitado desde a manhã.
Diz-se que os filhos são os grilhões que nos prendem o passado, o presente e o futuro, mas, em verdade, não há pai mais infeliz do que aquele que tem um devasso por filho. Sendo o sangue um laço impossível de cortar, o pai vê-se forçado a abrir os cofres que tanto preza toda vez que o filho, após esgotar todas as travessuras possíveis, cai no abismo da ruína. Afinal, se o pai disser que não o conhece, o mundo não o perdoará, e a vergonha de ver o nome da família manchado é maior que o apego ao dinheiro.
Contando com isso, Ishinosuke prosseguiu: “tenho uma dívida que vence esta noite. Como servi de fiador e firmei o compromisso com o meu carimbo pessoal, se eu não entregar o que devo a esses vagabundos, o desfecho será terrível, como uma tempestade em plena época de apreciar as flores. Não me resta alternativa e seria uma afronta ao vosso nome não pagar, pai”. Em suma, era o dinheiro que ele exigia. A madrasta, suspeitando desde a manhã que tal coisa ocorreria, observava a cena imaginando quanto Ishinosuke mendigaria dessa vez. Ressentida com a passividade do marido, mas igualmente incapaz de vencer a eloquência de Ishinosuke, limitava-se agora, trocando de lugar com Omine, a quem tinha feito chorar pela manhã, a lançar olhares de soslaio para se certificar das feições do pai. Este, em silêncio, dirigiu-se ao cofre e de lá trouxe um maço de cinquenta ienes.
“Não te dou este dinheiro por mérito teu. Dou-o por pena das tuas irmãs que ainda não se casaram e para não envergonhar o marido da tua irmã mais velha. A casa Yamamura sempre se pautou pela honestidade e pela retidão, e jamais permitiu que boatos vis sobre o seu nome circulassem por aí. Tu deves ser a reencarnação de um demônio para teres nascido assim. Caso a tua insensatez te levar a cobiçar o bolso alheio, a ignomínia não parará em mim. O patrimônio é secundário, o que importa é não envergonhar teus pais e irmãos. De nada adianta falar-te, mas, se fosses um jovem herdeiro comum desta família, evitarias criar intrigas públicas desnecessárias, farias algum esforço para fazer as saudações de Ano Novo em meu lugar e pouparias este pai quase sexagenário de chorar de vergonha. Mesmo tendo contato com livros na infância, me pergunto por que não compreendes isso? Agora vai! Sai daqui! Vai para onde quiseres, mas não tragas a desonra para dentro desta casa!” O pai retirou-se para os aposentos internos, e o dinheiro desapareceu no bolso do peito de Ishinosuke.
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“Minha mãe, que passeis bem e que tenhais um próspero Ano Novo. Sendo assim, despeço-me", disse Ishinosuke com uma reverência propositalmente cerimoniosa. “Omine, pegue as minhas sandálias! Não estou partindo para outra casa através da entrada, mas apenas saindo para um passeio!”, exclamou com descaramento, agitando os braços largamente. Para onde seguiria ele? As lágrimas do pai, em meio à agitação da noite, não passariam de um sonho fugaz. Não se deve ter um filho desregrado, mas tampouco se deve ter uma madrasta que os cria para a vadiagem.
Embora não se espalhasse sal para purificar o caminho, a patroa tratou de varrer os vestígios da partida do herdeiro, exultante por vê-lo em retirada. Ainda que o dinheiro lhe doesse no bolso, odiava tanto vê-lo que sua ausência era o maior dos bens. “Como pode alguém ser tão cínico? Gostaria de ver o rosto da mãe que pariu tal criatura!”, dizia ela, polindo sua costumeira língua venenosa.
Como poderia Omine dar ouvidos a tais falatórios? Aflita pelo horror do crime cometido, já não sabia se era ela mesma ou outra pessoa. Revivia o ato de instantes atrás como se trilhasse uma trilha em sonhos. Seria possível que aquilo passasse despercebido? Ainda que fossem muitas notas, se as contassem, a falta de uma única delas saltaria aos olhos. Se uma quantia exatamente igual à que havia solicitado não estivesse ali, até Omine desconfiaria de si mesmo. Se a interrogassem, o que faria? O que diria? Negar seria um pecado ainda maior; confessar traria a vergonha sobre o seu tio. Estava pronta para o seu próprio castigo, mas vestir o seu honrado tio com a túnica da infâmia seria o cúmulo da miséria. “Dirão que gente pobre é capaz de tais baixezas!”, pensava ela com amargura. “Que tristeza! O que devo fazer? Não haveria um meio de eu morrer subitamente agora, para que a honra de meu tio permanecesse intacta?”. Seus olhos seguiam os movimentos da patroa, mas seu coração vagava em torno da escrivaninha.
Havia chegado a hora do “Grande Acerto”, o momento da noite em que todo o dinheiro era reunido e selado. A patroa, lembrando-se subitamente, disse: “Deixei vinte ienes na escrivaninha que o Tarô, o telhadista, devolveu do empréstimo. Ofude! Omine! Tragam a escrivaninha para cá!”. Ao ser chamada do aposento interno, Omine sentiu que sua vida já se extinguia. “Diante do patrão, direi tudo o que houve desde o princípio; contarei a falta de piedade da patroa e, sem artifícios ou fugas, confessarei: ‘Não sei se foi por cobiça, mas eu roubei’. Rogarei para que entendam que meu tio nada teve com isso. Se não me ouvirem, cortarei minha própria língua e morrerei ali mesmo, para que creiam que não minto ao custo da minha vida”, conjecturava. Com tal determinação o seu peito se firmou, mas o coração que a levava ao aposento interno era o de uma ovelha conduzida ao matadouro.
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Omine tinha pegado apenas duas notas, deveriam restar dezoito. Mas, por algum mistério, o maço havia desaparecido por completo. Por mais que virassem a gaveta de cabeça para baixo e a sacudissem, de nada adiantou. O que causou estranheza foi um pedaço de papel que caiu entre os restos, um bilhete escrito sabe-se lá quando:
(Tomei também de empréstimo a parte da gaveta. — Ishinosuke)
“Então foi aquele vadio!”, exclamaram todos, trocando olhares, e para Omine não houve qualquer interrogatório. Teria a virtude oculta de sua piedade filial transformado o seu erro, sem que ela soubesse, no crime de Ishinosuke? Ou teria ele, ciente de tudo, assumido propositalmente a culpa por ela? Se assim for, Ishinosuke tornou-se a divindade tutelar de Omine. Ah, o que será que o destino reservou para o futuro?!
Notas
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Há um trocadilho que envolve um ditado popular clássico japonês, a saber: “正直の頭に神宿る”, “as divindades habitam a fronte dos honestos”. O “honesto” que antecede o nome de Yasubei vem desse ditado. ↑
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O valor nominal de cinco rin era de 1/200 de um iene, isto é, cinco rin valia meio centavo de iene. ↑
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Tipo de cerâmica produzida e popularizada nos arredores de Imado, região de Asakusa, localizada próxima às margens do Rio Sumida, na atual Tóquio. Em contraposição aos produtos de cerâmica que passam por queima de esmaltação, as cerâmicas de Imado eram mais simples e normalmente consistiam em utensílios baratos de terracota ou que passavam por cozeduras mais rápidas. ↑
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No original, “暦に黒ぼしの仏滅”. Os calendários antigos registravam com um ponto negro indicando a data em questão, daí menção à estrela negra. Apesar da aparente ligação com o Budismo, a associação com a morte de Buddha não necessariamente tem cunho religioso e é mais usada enquanto elemento popular de superstição local, algo próximo ao uso da sexta-feira treze no Brasil. ↑
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O original registra “前厄” para caracterizar os 42 anos. O termo faz referência a uma antiga superstição japonesa que lista algumas idades em que calamidades pessoais ocorreriam com mais facilidade. Normalmente, para os homens, corresponde às idades de 25, 42 e 61 anos, já para as mulheres às idades de 19, 33 e 37 anos. Dentre estas, os aniversários mais preocupantes são o de 42 e 33 anos. O ano exato desse período de azar denomina-se “本厄”. O “前厄” indica o ano anterior a este e “後厄”, o posterior. No texto, 42 anos de idade aparece como ano anterior ao ano de azar devido à forma de contagem da idade naquele período. Isto é, a contagem de idade das pessoas iniciava-se a partir do momento de nascimento e, a cada virada de ano, somava-se um ano à conta. Assim, nascia-se já com um ano de idade e, consequentemente, os 42 anos registrados no texto correspondem aos 41 anos na contagem que usamos mais comumente na atualidade. ↑
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O sistema básico de registro de pessoas no Japão é o Registro Familiar ( 戸籍) em que um indivíduo é registrado como pertencente a uma família. Há algumas ocasiões em que as pessoas mudam de Registro Familiar, como o casamento. Essa mudança implica no desligamento legal dos membros da família anterior. ↑
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Mesa baixa com aquecedor embutido na parte de dentro muito usado no inverno para aquecer as pernas. ↑
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Durante a Era Meiji e Taishô, o meio-dia era costumeiramente demarcado com um tiro de canhão. O costume foi caindo em desuso após as melhorias de precisão pelas quais passaram os relógios. ↑
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O termo no original é “太公望”, que é um dos nome pelo qual Jiang Ziya, general e estadista chinês que viveu há mais de três mil anos e teria exercido um papel importante na derrubada da Dinastia Shang (1600-1045 AEC). A associação da pescaria com o nome de Jiang surge de uma lenda que diz que ele, quando estava em exílio, ficou anos pescando com um anzol reto e sem isca na esperança que os peixes, quando estivessem prontos, viriam até ele por livre e espontânea vontade. O uso no texto é irônico. ↑
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Um dos Sete Deuses da Fortuna japonês, é comumente representado como um senhor muito sorridente que segura uma vara de pesca em uma das mãos e, debaixo do outro braço, traz um pargo japonês, fruto da pesca. ↑